quinta-feira, 18 de junho de 2020

O dia em que "virei mãe" de novo

Há um ano eu vivo com o meu companheiro, e assim como eu desejei, ele é um homem divorciado como eu e tem duas filhas. Eu pensava que seria importante que fosse assim porque desta forma teria ao meu lado um homem que entende o que eu passava como divorciada e mãe de menina. E eu tinha razão.
Quando começamos a conversar mais diretamente sobre o interesse de um pelo outro, eu me lembro de ter tido uma conversa que na época parecia um tremendo exagero mas que hoje vejo que foi fundamental para que os dias de hoje sejam tão preciosos: o casal de líderes da célula que eu fazia parte não gostava muito da ideia do relacionamento e decidiu me questionar algumas coisas para que eu estivesse consciente e fizesse boas escolhas. Uma das perguntas foi sobre como eu encarava o fato dele ser pai.
Eu respondi o que achava e a pergunta seguinte foi estranha, e ao mesmo tempo que soou um absurdo, foi um soco no estômago: "se em algum momento a mãe delas faltar, você está disposta a cobrir esse papel?" e eu fiquei olhando... Pensando o quão improvável soava aquela pergunta, mas refleti, pensei... E respondi que sim, já que efetivamente era quase impossível isso acontecer.
Conforme o relacionamento foi acontecendo, eu fui conhecendo o coração dele de pai, e fui refletindo sobre como eu tomaria certas decisões em relação a cada uma das duas. Até que um dia eu decidi que queria ter um relacionamento com elas por elas e por mim, independente de como fossem as coisas com ele. Eu queria estabelecer uma ligação em que elas vissem em mim uma possibilidade de apoio e contato por mim, e não pelo meu papel. 
O tempo foi passando, passou-se o primeiro encontro com elas, e aos poucos (até que bem rapidamente) surgiram momentos de interação intensa, já que as férias chegaram rápido e nesse periodo, metade do tempo é com o pai, metade com a mãe. Bom, dali em diante metade com o pai e comigo. Mas ainda não era nem perto do que seria a situação hipotética da fatídica pergunta.
Os meses se passaram, e veio a decisão de nos mudarmos de país por vários motivos, e o principal motivador daquela mudança naquele tempo foi a mudança delas para Portugal. E assim fomos: nos despedimos de Paris, e desfizemos nossas vidas francesas, e viemos para terras lusitanas.
Aqui tudo mudou: na chegada em um país onde linguisticamente tudo se inverteu, agora são elas quem me perguntam o significado das palavras... E claro, por conhecer quase ninguém, os laços familiares estreitaram.
E quando nada mais parecia poder deixar tudo tão intenso, veio o covid-19 e a quarentena, e as crianças agora vivem uma semana com a mãe e uma conosco regularmente (este é o quarto mês assim) e as atividades regulares como as escolares passaram a ser abordadas também aqui. Ou seja, vivemos hoje em um esquema tipo guarda compartilhada, e como todo cenário de crise, a gente faz tudo o que pode pra fazer o melhor possível pra quem mais precisa no momento. 
Ontem, depois de algumas semanas desejando um belo e relaxante banho de banheira, eu acabei o meu turno de oito horas de trabalho depois de cinco dias seguidos na luta (incluindo final de semana), dei banho nas crianças enquanto o pai fazia a comida para elas e a mais velha começou a se sentir mal. Dores de cabeça, choro e pouca habilidade para lidar com o incômodo que não é habitual, e portanto, ainda mais difícil de lidar para ela.
Adia um pouco o banho pra que tudo fique bem até que o jantar esteja servido, e assim que ficou pronto, escapei para o banheiro com o livro que chegou e estava doida pra continuar a leitura, e lá estava, feliz e contente, de banheira quase cheia, até que surge a mais nova, precisando fazer cocô. 
Na hora concordamos que ela fazia a parte dela e eu ia seguir os meus planos e assim seguimos: ela, uma menina de seis anos, sentada fazendo as necessidades dela e batendo papo comigo, deitada na banheira e dando lugar às conversas sobre os sonhos infantis que talvez nunca se realizem (quem sabe?) mas que naquele momento eram mais urgentes.
Quando ela acabou, eu lavei ela ali e continuei o meu banho, tranquila, serena e rindo... Simplesmente porque aquela pergunta sobre a situação que parecia tão bizarra ressoou na minha mente, e me fez ver como foi fundamental. A escolha daquele momento me fez curtir a situação de ontem.
E sim, elas tem mãe, está viva e nunca será substituída, e nem pode. Mas elas tem também por aqui uma "mãedrasta" com quem podem contar, e isso é verdadeiro milagre para mim. Ou seja, "virei mãe" de novo! 

domingo, 14 de junho de 2020

A (in)constância da criação de Deus

Hoje em dia tenho a oportunidade de ver o por do sol à beira do mar com uma certa frequência. Aliás, sendo bem honesta, com uma frequência que eu jamais imaginei ser possível antes na minha vida. E isso tem trazido os seus demais privilégios. 

Em primeiro lugar é que estar em contato com a natureza acalma o corpo e a mente, e isso nos leva a um estado de relaxamento muito mais profundo do que quando estamos conectados com alguma coisa eletrônica fabricada por mãos humanas. 

Mas além desse primeiro grande efeito, eu sinto que tenho tido outros aprendizados, em especial sobre como percebo Deus. 

Não, eu não acho que Deus seja mulher e se chame Mãe Natureza, não cria nisso e continuo não crendo. Mas sim, observar a dinâmica dos elementos naturais me parece revelar muito mais sobre a vida humana em comunidade e espiritual do que se possa imaginar de imediato. 

Eu vejo o sol se pondo cada dia um pouquinho mais tarde porque agora, com o verão se aproximando, os dias se dilatam e aos poucos temos alguns minutos a mais no sol do que no dia anterior. Mas não se iluda: se você não for constante e específico, não perceberá essa sutileza, a não ser que com o passar do tempo você veja o por do sol tantas vezes da mesma perspectiva que, mesmo querendo ignorar, fica impossível não registrar essas pequenas diferenças durante um ano.

Aprendo então que quanto mais observamos um processo, mais podemos notar discrepâncias e diferenças, mesmo que se em teoria seja sempre o mesmo processo e pareça sempre a mesma coisa. 

Vejo também que o mar se revela em um modo na superfície mas isso não quer dizer que no profundo seja igual. As vezes agitado na borda, o mar no meio do oceano é calmaria. 

Aprendo com isso que para se conhecer uma pessoa, inclusive o Espírito Santo de Deus, não basta olhar a superfície. E não tem a ver com a pessoa ser dissimulada: cada pessoa é um mundo de convicções, ideias, (pre)conceitos, dores e alegrias, amores... E olhar só aquela meia duzia de atos não te dá condição de conhecer quem a pessoa é de fato, seja de uma índole boa ou má. Os maus fazem bons atos, os bons erram. Faz parte. Devemos ir mais profundo.

Embora as ondas do mar sejam constantes, elas não se repetem. Isso me lembra daquela passagem da Bíblia que desaconselha vãs repetições: a natureza tem comportamentos constantes, mas nunca iguais, e podem mudar conforme a estação do ano e a interação com os outros elementos do ambiente (você incluso).

Além do que, vejo que a natureza é completa, mas para se extrair certas coisas dela é preciso paciência, tempo e técnica. Não adianta apressar certas coisas que mesmo conseguindo adiantar certos resultados, o processo não se sustenta.

Por fim, se você decidir não levar em consideração o seu real tamanho diante da natureza (assim como diante de Deus ou do mundo espiritual, por exemplo) você será detido, e eventualmente derrubado. Você tem chances de vencer? Sim, se conhecer bem quais são as regras, e claro, principalmente da imprevisibilidade de tudo aquilo que não podemos controlar. Fora ou acima disso, você precisa seguir as pegadas de Quem tem condição de vencer, trilhar o mesmo caminho e confiar que Ele pode te fazer superar todo e qualquer obstáculo. Mas sozinho, ou de modo arrogante ? Não se surpreenda se você se machucar ou tiver perdas mais significativas. A criação é mestre em te mostrar a sua real proporção dentro do seu contexto.

Ou seja, a (in)constância da criação de Deus sempre pode nos ensinar mais sobre nós mesmos, sobre o outro, sobre as circunstâncias e também sobre promessas e jornadas propostas por Ele.

Encarar a criação não é para qualquer um, mas todo mundo pode se dispor a começar e enfrentar o desafio, e com Ele, se tornar mais que vencedor. E aí, vai encarar? 

sexta-feira, 5 de junho de 2020

A folha em branco

Cheguei num ponto da minha vida que não sei se é bom ou ruim.

Neste ponto em que me encontro sinto cada dia mais a importância das palavras, o peso e o poder delas, e isso me tem tornado muito mais econômica em relação ao que lanço no ar.

Aliás, tenho também procurado na medida do possível me tornar cada dia mais precisa, mais assertiva, e isso significa ter mais sabedoria para verbalizar o que sinto, penso e vejo.

Talvez seja ruim por um lado porque pode me tornar uma pessoa muito menos espontânea e nisso se perde muito. Por outro lado, me torna uma pessoa com melhores relações, e isso é mais saudável para mim e para quem está ao meu redor. 

Sem neuras de querer controlar o mundo, mas sem a ilusão de estar sempre certa, a verborragia contida ajuda a me colocar na medida certa para mim mesma e para quem me ouve/ lê.

Mas... Gera também um conflito: parece que em busca de estar melhor com o meu próximo eu estou mudando a mim mesma. Até que ponto isso faz sentido?

Saber quem você é e o que você deseja cada dia é mais fundamental para que você consiga ser na integridade aquilo que Deus plantou no seu coração e que, mesmo quando você não vê aparecer, está lá. 

Um dia eu espero que a minha folha não esteja mais em branco, mas que tenha a medida certa de palavras doces e com uma boa história para contar. Que ela seja a melhor história, e que eu seja a primeira fã daquilo que eu estiver relatando, não pelas conquistas, mas pela veracidade do que foi relatado. 

Por fim, a luta é grande e talvez eu nunca escreva os diversos livros que pensei em escrever... Não por falta de vontade de escrevê-los... As vezes por excesso de vontade de fazer isso e muito mais... E essa intensidade que tem dentro de mim, que acaba competindo com tanta coisa, me roube as palavras... E me deixe sem voz. 

Um dia eu encontrarei a sabedoria, e com ela trilharei um caminho onde o final é um legado de paz, amor e conteúdo que transforma vidas para melhor. 

No dia em que a minha folha não estiver mais lotada e nem estiver em branco... Ah, esse dia... 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Dois pesos, duas medidas

Realmente a justiça própria é um veneno que nos mata sem que ao menos consigamos perceber os seus efeitos.
Quantas vezes sem querer devo twr aplicado um peso maior para o outro, ao passo que para mim, aliviei a situação? Quantas vezes será que considerei somente o meu ponto de vista porque estava chateada, brava ou sensível? Quantas vezes, durante momentos de maior pressão, eu deixei de lado a sabedoria e abracei a insanidade de dar vazão apenas aos meus sentimentos, fazendo deles árbitros para avaliar a situação?
Nada disso é são; nada disso é bom. Mas dentro de uma determinada perspectiva, nada disso estaria errado. Então, qual é o ponto de equilíbrio?
A Biblia fala sempre que amar ao próximo é essencial, mas que a medida é o quanto nos amamos a nós mesmos. Então, o quanto temos nos amado?
Se só podemos oferecer o que temos, será que a nossa medida de empatia, misericórdia e graça são mesmo ajustadas ao que é humano (considerando o amor de Deus pelas pessoas) ou apenas ao que é socialmente aceito?
Eu por mim mesma posso dizer que diversas vezes apoiei o senso comum, mesmo que esse, na essência, não conaiderasse o humano maior do que a regra. Coisa de Velha Aliança? Talvez... Coisa de cristão? Não deveria ser assim jamais, só que na prática...
Difícil me lamentar do outro quando eu mesma não dou conta de viver aquilo que prego ou que digo que acredito. Infelizmente ainda sigo sendo muito mais inconstante e incoerente do que gostaria. 
A minha salvação está no Amor que não me julga e nem me deixa de lado, independente do que eu faça. Errei? Meu ato não é apoiado, mas eu sou abraçada. Acertei? Meu mérito é reconhecido, mas nunca menos do que aquilo que sou. O que eu faço sempre tem o peso correto: ganha sempre o segundo plano.
Talvez soe romântico, quem sabe poético, ou até um tanto utópico. Eu confesso que prefiro encarar tudo isso como alvo ou meta. E sim, eu sei que essa palavra é terrível dependendo do seu contexto, mas de verdade, aceito sugestões de termo melhor para definir aonde queremos chegar.
O mundo vai de mal a pior. A Bíblia alerta que o mundo (o sistema e os paradigmas vigentes) jaz no maligno (ou seja, não priorizam o que é fundamental para Deus, que é a salvação humana). De qualquer modo, ou até por isso mesmo, Cristo faz questão de nos lembrar que Ele venceu o mundo, e que sim, é possível simplesmente amar.
Quanto estou distante disso? Menos do que ontem (espero) e mais do que amanhã (creio). Mas como o que realmente existe é só o hoje.. Bom, hoje eu tentei fazer o meu melhor. E sei que tem alguém que não aplica em mim os mesmos pesos e medidas que eu aplico para tudo, inclusive sobre mim mesma. 

domingo, 26 de abril de 2020

Um dia sem brincar é um dia perdido

O mundo das crianças é verdadeiramente fascinante. A leveza e a simplicidade com que elas encaram a vida é fascinante, e sinceramente invejável muitas vezes.
Crianças que se sentem amadas acham que podem tudo, porque elas acreditam que tudo o que elas precisam será fornecido. Elas também acreditam que tudo é necessário, mas essa imaturidade tem uma vantagem curiosa: traz uma vida sem limites e plena de possibilidades.
Para as crianças a vida é divertida, e tudo é oportunidade para criar uma nova piada, um novo jogo, uma nova canção... E claro, tudo pode gerar novos risos. 
Em tempos de quarentena, em que estamos há semanas sem poder fazer nenhum passeio, sem conhecer lugares novos, sem que se possa visitar amiguinhos ou parentes, sem festas de aniversário, sem parques e sem praias, para muitos adultos o tempo tem sido de prisão. Para as crianças, muitas delas ao menos, tem sido tempo de privilégio, e de tempo, presença e atenção dos pais.
Não se pode obviamente ignorar o fato de que algumas famílias não são assim, e que este período de incertezas revela o pior que está dentro de alguns. Mas para as crianças... É tempo de inventar, de criar, de inovar, de curtir a casa e de fazer coisas antes inimagináveis, dentro do reino do lar, onde elas mandam e muito. 
Cada dia mais vejo o quanto precisamos aprender com elas. Certamente é por essas e muitas outras que a Bíblia fala sobre nos tornarmos crianças para garantirmos a nossa eternidade junto do Pai: só na confiança do grande e eterno Amor do Pai é possível sermos satisfeitos como as crianças quando são amadas.
É delas também a lição mais preciosa: poucas coisas nessa vida são essenciais, e certamente todas elas nos arrancam sorrisos. Talvez por isso que, como ouvi outro dia, um dia sem brincar é um dia perdido... 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Um novo dente

Ontem caiu o primeiro dente da menorzinha aqui em casa, e foi um marco para todo mundo.
Para o papai, foi excelente porque ele teve o privilégio de participar da queda do primeiro dente da filha menor, assim como ele pode também estar no dia em que a filha maior passou pela experiência. Para a irmã maior, foi uma festa, porque agora ela poderia compartilhar com a irmã menor tudo aquilo que ela descobriu, como por exemplo como comer através do buraquinho do dente, como colocar a lingua, como falar sem babar... para a menor, foi uma experiência diferente e divertida, e claro, as piadas agora foram temporariamente multiplicadas.
Mas para mim... bom, para mim foi no mínimo curioso: eu voltei no tempo e lembrei como era quando os dentes da minha própria filha caíam. Lembrei que os tenho guardados até hoje (imagina só que a caixinha está lá, guardadinha, na minha bolsa de lembranças), e eu lembrei como essa é uma experiência ao mesmo tempo estranha e divertida para cada um de nós, e é um primeiro sinal concreto de que estamos crescendo.
Na verdade, a criança não tem tanta noção assim, mas nós adultos sabemos que, daqui em diante, o tempo voa... e que depois do primeiro dente, é uma descoberta após a outra, um desafio vencido após o outro... e quando a gente for ver... eles estão saindo de casa para viver aquilo que eles sonharam para si mesmos.
Como "madrasta" (e está entre aspas porque tecnicamente o título é seu quando a mãe falece), eu vejo de uma outra perspectiva tudo aquilo que vivi com a minha filha, e principalmente, tudo o que não vivi com ela. E vejo muitas coisas da mãe das meninas que, sinceramente, acho que ela não vê. Até porque, na ocasião, eu não via.
Para se ter uma ideia, quando a minha filha tinha essa idade, a câmera digital ainda era caríssima e inacessível para quase toda a população. E fazer fotos para depois revelar ainda era uma coisa meio fora do orçamento, e pouca gente andava com a máquina fotográfica na mão para registrar o cotidiano. Portanto, eu mesma nunca fiz fotos do dia em que os dentes da minha menina caíram... mas hoje é diferente, e eu pude fazer um registro para que a mãe, assim que voltar de viagem, possa ver como estava e como ficou, imediatamente após a queda. Não me ocorreu fazer um vídeo, mas se tivesse pensado, teria feito também. É uma forma colaborativa de fazê-la participar. Eu não tive isso com a minha filha... por que não posso oferecer isso a ela?
Uma outra oportunidade que tenho é que agora sempre que posso, mando fotos das meninas para as avós. Eu, como avó que mora distante, fico muito contente porque sempre tem um ou dois "informantes" que me ajudam a ter fotos e vídeos da minha Pequena Plenitude (agora eu a chamo assim por causa de uma foto em que ela está realmente radiante) e isso me ajuda a ter alguma participação do cotidiano dela. Então, tendo a possibilidade de também fazer registros interessantes e mandar para as avós (uma no Brasil e outra na França), por que não fazê-lo? É só uma continuação da gentileza que recebo com constância.
Mas o mais interessante disso tudo é que eu pude explicar porque temos que trocar de dentes... e isso me trouxe uma visão muito mais clara sobre alguns processos que temos que encarar na nossa vida.
A mais nova perguntou se eu não achava estranho a gente ter que passar pelo processo de perder dentes para esperar nascer outros no lugar... por que então não nascermos e ficarmos com os mesmos dentes para sempre? E eu expliquei que os dentes tem o tamanho adequado para o tamanho da nossa boca e da nossa cabeça quando a gente nasce... mas que o corpo cresce (a cabeça idem) e portanto, os dentes (que não crescem) ficam pequenos em comparação ao que a boca passa a precisar... então, se a gente mantivesse os mesmos dentes, praticamente a gente teria vários buracos na boca e comer seria bem mais complicado, fora a parte de higienizar e tals... ela entendeu, a mais velha completou, e eu fiquei pensando no assunto.
Se a gente comparar o dente com uma experiência do passado, é fácil entender porque a gente não gosta muito de desapegar do que aconteceu: a gente já passou quando bebê pela dificuldade de nascer o dente (a gente não lembra mas sabe que coçou, doeu, teve gente que teve febre, diarréia, etc), e depois a gente se adaptou bem à realidade de ter dentinhos. E quando a gente menos espera, eles começam a se movimentar, a comida engancha, e o medo vem... e o dente cai, fica o buraco, sai sangue, as vezes incomoda, e por um período fica aquele vazio esquisito que, por mais que seja divertido sentir com a lingua, atrapalha pra se alimentar e pode trazer outros desafios (quem usou aparelho para os dentes sabe do que estou falando).
Então, a gente fica agarrado àquela experiência que a gente passou, porque afinal de contas, ela ainda estava funcionando... a gente tinha tanta certeza de que ela era suficiente... porque, afinal de contas, ela nos serviu até aqui. Mas agora, assim como os dentes de criança caem, e precisam nascer dentes maiores, com uma estrutura mais forte, e com raízes mais profundas, de modo que possam durar funcionando bem por décadas, certas experiências tem também certo prazo de validade.
Portanto, não é desprezar o passado (assim como eu, muita gente guarda mesmo os dentinhos que caíram como lembrança), mas é saber que ter que trocar é sinal de saúde, de crescimento e de que, por mais que seja desconfortável, está tudo no seu devido lugar.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

O problema só é seu se você quiser ele

De tempos em tempos, sou convidada a viver em outros moldes coisas que já vivi no passado, como que um convite à superar aquilo que me fez mal, vendo a situação com outros olhos e deixando-a no seu lugar: no passado.
Isso é definitivamente graça de Deus, porque para sermos pessoas inteiras e curadas, é necessário muitas vezes assumirmos que existe sim alguma coisa que nos incomoda e que nos faz sofrer. E mais: é necessário perdoar.
Como nem sempre somos rápidos nisso (aliás, percebo o quanto sou lenta em perdoar e deixar para trás certas coisas), vejo então que Deus nos permite que por um tempo, determinada coisa simplesmente não aconteça, de modo que possamos ter um fôlego para que, com um novo ânimo, possamos finalmente viver novamente aquela situação para então superá-la de uma vez por todas.
O curioso é que eu tenho visto que, embora tenha aprendido a aproveitar melhor as segundas chances que Deus tem colocado diante de mim, eu ainda tenho dificuldade em uma coisa: me perdoar.
Explico: ontem revivi um coisa que me magoou profundamente no passado, e ao invés de gritar e simplesmente devolver a agressão, eu calei, refleti e chorei, e orei, porque entendi que era uma oportunidade de vencer aquilo que já me fez tão mal. Até porque, só me faz mal porque eu permito que me atinja.
O fato é que chorei, orei, refleti, acordei durante a noite, ensaiei discurso, orei de novo e de novo, dormi, sonhei... Acordei e veio um pedido inesperado de perdão. E eu chorei, mas dessa vez de alívio por saber que as coisas estão no lugar e que tudo está bem. 
O que me chocou foi que, depois de tudo isso, notei que ainda falta algo: me perdoar. Afinal de contas, uma das coisas que mais me fez sofrer nesta noite foi o fato de que eu entendi que a ofensa foi gerada por uma coisa mal resolvida dentro do outro... Só que mesmo assim, eu permiti que aquilo acontecesse novamente. E pra mim, agora, o que mais me frustra é saber que ainda não sei me posicionar em relação a este tipo de situação, potencialmente permitindo que coisas do tipo aconteçam constantemente.
Hoje eu entendo que certas coisas podem acontecer, e que não é me afastando dos outros que a gente consegue uma vida saudável. Na verdade, o segredo da vida equilibrada, a meu ver, está ligado à saber como lidar com aquilo que as pessoas procuram colocar nas suas costas. 
Sendo mais clara: se uma pessoa está frustrada naquele dia e te trata mal por isso (quem nunca?) então não adianta dizer que eu vou me afastar daquela pessoa... Ate porque sempre vai ter alguém que em um dia ruim está frustrado e pode acabar descontando em quem está ao redor (inclusive eu mesma faço isso infelizmente de vez em quando).
Então, o segredo é respirar fundo, olhar a situação com calma e equilíbrio, e ver que aquilo que está sendo feito não tem a ver com você, e talvez (ou provavelmente) nem representa o que a pessoa é, mas a atitude é resultado de uma situação mal resolvida por parte do outro e vc deu o azar de "estar no lugar errado na hora errada", sendo alvo daquela atitude ruim.
Neste caso, uma vez que a gente consegue respirar fundo, olhar para o céu e pedir que Deus nos dê o olhar Dele sobre aquilo, poderemos ver que não tem a ver conosco, e então, podemos agir com base nessa consciência. Isso não quer dizer tentar explicar nada para a pessoa, e nem também aceitar qualquer tipo de atitude ruim consigo mesmo. Quando a gente vê a gente e o outro com o olhar de Deus, a gente sabe respeitar ambos, e educadamente pede licença para o outro e deixa-o na ofensa sozinho.
Mas não... Quando a gente não tem essa serenidade, então abraçamos a ofensa, e aceitamos aquela semente da discórdia e ajudamos a plantá-la também no nosso coração, transformando o que deveria ser apenas um ato isolado em uma bola de neve de mágoas e dificuldades de relacionamento.
Então, a quem cabe mudar ou interromper este ciclo?
Não podemos controlar ou mudar o outro. Demorei para entender isso. Mas podemos não levar adiante uma mensagem ruim, uma atitude ruim, uma ideia ruim... E isso sim é nossa responsabilidade.
Como fazer isso? As vezes ouvindo o que foi dito e deixando passar (mas internamente orando e perdoando a pessoa), as vezes procurando mostrar que aquela atitude não combina com o que a pessoa é de bom e portanto não é legal, e as vezes, simplesmente pedindo licença e deixando a pessoa sozinha até que ela se acalme e possa conversar baseada no que ela é, e não na frustração que a dominou.
Mas essa escolha não é do outro: ela é nossa, e depende de muito amor próprio. Isso porque, para saber respeitar o tempo da pessoa, separando o que é fruto da frustração dela e o que é realmente fato em relação à sua pessoa, é importante demais se conhecer profundamente e se amar (e ser consciente do quando se é amado por Deus) ao ponto de não se abalar com o que se deve fazer... E isso inclui ter a serenidade de deixar a pessoa falando sozinha para o bem de ambas, evitando assim que a ofensa se torne avalanche, e ao mesmo tempo, tendo a segurança de que você não perderá nada com essa atitude (afinal, se a pessoa do outro lado te ama, ela vai entender o que aconteceu quando se acalmar).
Uma vez entendido isso, fica mais fácil agir ao invés de reagir da próxima vez, não é mesmo ?
E sim, eu sei que infelizmente vou precisar de uma próxima vez... Mas já me sinto bem mais preparada e mais tranquila, porque sei que estou evoluindo, e que o espinho que me feria já não fura mais tão profundo a minha alma.