Hoje eu passei por um acidente doméstico com a minha filha. Graças a Deus nada grave mas, na hora, fiquei preocupada com o que poderia acontecer. Ela conseguiu derrubar uma panela cheia de sopa fumegante, acabada de sair do fogão em suas pernas. Ela gritou e começou a chorar copiosamente, até porque deve ter doído realmente bastante.
No meio do acontecimento contei para alguém o que tinha acontecido a reação dessa pessoa foi: "toma cuidado... presta atenção!" e eu, na hora, me lembrei do pai dela me dizendo que eu não sou uma boa mãe e que não teria condições de sê-lo em momento algum porque eu simplesmente não nasci para isso...
Fiquei obviamente, além de preocupada com as pernas da menina, frustrada por não ter conseguido impedir o acidente. Por sinal, eu nem estava no cômodo quando isso aconteceu e me senti mais negligente ainda.
Por um tempo aquilo me entristeceu... mas depois, fiquei me lembrando que quando eu era criança meu pai colou uma tiara minha com uma cola super forte de secagem rápida e eu, que amava a tal tiara e estava ansiosa por usá-la novamente, coloquei-a na cabeça antes do indicado. Só que, no caminho para o meu "cucuruto" a tiara se quebrou e colou o meu olho direito. O meu pai ficou visivelmente abalado e, mantendo a calma, procurou o que fazer para tirar a cola do meu olho. Nem lembro exatamente o que foi que ele fez mas o ponto é que os meus olhos são perfeitos e eu não tive nenhuma sequela.
Lembro-me também do dia em que resolvi testar o que acontecia quando a gente coça o ouvido com um lápis (que no caso era azul marinho) só que, ao invés de coçar o ouvido, eu quebrei a ponta lá dentro. Mas, eu era um tanto tímida e já muito auto-crítica e fiquei com vergonha e decidi não contar nada para ninguém. Uns dias depois (acho que quase uma semana tinha se passado) o meu pai notou que eu tinha algo azul dentro do ouvido e perguntou o que era e eu, sem graça, disse não fazer ideia do que poderia ser. Lá fomos nós então para o otorrino e, chegando lá, o médico em questão fez uma lavagem no ouvido e saiu a tal ponta...
E a vez em que eu estava descendo as escadas de madeira do sobrado em que morávamos? Eu estava lendo um caderno que queria muito mostrar para a minha mãe e tenho certeza de que escorreguei ou pisei em falso e... sei lá o que houve, porque só me lembro da sala de raio x do hospital...
Lembro-me também de outras tantas histórias que já ouvi de outros, como feijões crescendo dentro das narinas, pés quebrados e várias histórias de crianças que tiveram que ser literalmente costuradas por causa de acidentes maiores ou menores.
Lembrei-me também desses pais, a começar dos meus que nunca deixaram de ser bons pais, mesmo não tendo impedido suas crianças de caírem e se acidentarem. Aliás, acho até que, dentro de uma certa medida, bons pais são aqueles que deixam os seus filhos viverem, e vão permitindo que aos poucos eles assumam novas responsabilidades, mesmo que isso represente um risco porque, em algum momento, os filhos terão mesmo que lidar com aquelas situações por si sós.
E aí, eu lembrei de uma moça com quem trabalho que, ao ser questionada sobre o que aconteceu em uma determinada situação comentou: "é, a criança se machucou quando estava... vivendo". E a minha filha se machucou quando estava... vivendo também. E isso me trouxe um enorme alívio e mostrou que, não só estou livre dessa mentira que eu tinha acreditado no passado, mas também que a vida é assim, afinal de contas, como disse alguém que eu conheço, viver é a coisa mais arriscada que podemos fazer, afinal, nunca ninguém saiu vivo dela...
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