domingo, 20 de maio de 2012

Prioridades

Hoje almocei na casa de uma pessoa muito querida, alguém que eu conheço desde a infância e que eu sempre vi com o maior respeito por vê-lo como exemplo de vida. Esse cara com quem almocei é filho da minha segunda mãe e é quase quinze anos mais velho do que eu. Portanto, quando eu nasci ele já era adolescente e já trabalhava. 


Esse homem é uma das pessoas mais determinadas que eu já conheci: quando tinha quatro anos de idade decidiu que seria bombeiro. Não sei de onde veio essa sua paixão mas sei que, por causa da sua decisão, resolveu praticar e para tal colocou fogo no barraco em que ele, seus pais e seu irmão moravam para apagar com a água que carregava entre as mãozinhas. É claro que além de ter queimado tudo e quase morrido, deve ter apanhado muito de seu pai que, mesmo sem motivos, era estúpido e machucava a sua família.


Enfim, ele cresceu trabalhando e mirando nesse alvo que era entrar para o Corpo de Bombeiros. Quando chegou a idade, ele fez o que era necessário e passou nas provas realizando o seu sonho. Desde então ele exerce a sua amada profissão com carinho e dedicação. 


Ele casou-se relativamente cedo (por volta dos vinte anos no máximo) e com a esposa teve três filhos. Sempre trabalhou e em muitos momentos assumiu mais de um posto de trabalho para sustentar a família e manter tudo aquilo que tinha se proposto a construir. Parecia-me um homem realizado com suas conquistas.  Só que eu nunca o tinha visto sorrir tanto quanto hoje.


Por motivos que não interessam a ninguém ele decidiu se separar de sua esposa. Certo ou errado em sua decisão (novamente isento-me até certo ponto covardemente de entrar em uma discussão tão particular) ele decidiu que queria uma nova chance de ser feliz já que seu relacionamento não podia prosseguir. Seus três filhos são grandes, lindos e educados. O mais velho está com vinte anos e é batalhador, já tem uma namorada firme e está trabalhando. O do meio acabou o colegial e trabalha e a mais nova está concluindo os estudos.


Depois de um tempo de ter se separado ele arrumou uma namorada bem mais moça do que ele (quase a metade de sua idade) e decidiu morar com ela (sim, porque embora queira casar o divórcio ainda não saiu e isso o impede de prosseguir). Então, hoje eu fui à sua nova casa: mobiliada com coisas relativamente simples mas de boa qualidade e com tudo o que o casal precisa para viver. Ela, assim como ele, trabalha e segue ajudando a manter as coisas em dia na casa.


Durante a nossa conversa no almoço, ele me disse algo que me fez parar e pensar: a vida é feita de estabelecer prioridades. Ele disse que por vários anos a segunda prioridade (a primeira sempre foi Deus) eram seus filhos e a esposa. Os filhos cresceram e não vêem mais o pai como prioridade (o que ele admite que é uma coisa boa já que está na hora de seus filhos viverem suas próprias vidas) e a mãe deles não é mais sua esposa. Agora, a sua segunda prioridade (a primeira continua sendo Deus) é a esposa atual. Ele disse ainda que faz o que for necessário para agradá-la porque ele entende que ela cuida bem dele e é o que ele espera dela e assim são felizes.


Só um parênteses: eu não sou a favor do divórcio, nunca fui e não serei. Acredito ainda que todo mundo que viveu um divórcio como cônjuge que se vai, como cônjuge que fica ou como filho de pais separados não é à favor de algo tão triste, delicado e dolorido em uma relação e tenta com todas as suas forças mudar a situação evitando o triste fim. Mesmo assim, admito que, às vezes, é a única saída que a pessoa vê e, mesmo tendo muito a perder, acaba encarando em favor de buscar uma segunda chance de ser feliz.


Tudo isso no fim das contas me fez pensar que eu nunca tinha o visto tão contente. Eu nem sabia que ele podia fazer piadas... e me fez pensar que, quando priorizamos aquilo que não é o melhor, deixamos de ser o melhor que nós podemos e também de ter o que nós podemos ter de melhor (ter aqui não é necessariamente material, embora em alguns casos bem próximos a mim - inclusive eu mesma - isso também seja verdade).


Saí de lá pensando então sobre certas coisas que a gente dá tanto valor mas nem sempre sabe estabelecer o conceito correto para nossas vidas como companheirismo, amor, idade, superação, crescimento e fé. Lembrei-me ainda de pessoas que por causa de um conceito errado ou uma prioridade invertida sofrem tanto em nome de algo que não tem o menor valor. E por fim, pensei sobre mim mesma que sei quais devem ser as minhas prioridades e que fica mais fácil defendê-las olhando para esses espelhos humanos (como esse homem que visitei) entendendo que escolher é perder mas priorizar o certo é sempre ganhar.

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