quarta-feira, 27 de junho de 2012
Que seja eterno enquanto dure...
Li uma reportagem hoje sobre pesquisas em estão sendo testados medicamentos para apagar memórias traumáticas. No texto é citado que uma parte da pesquisa foi administrar a soldados que vieram com traumas de guerra do Iraque uma substância chamada propanolol, que é frequentemente usada para questões cardíacas mas que, neste caso, surgiram como um reforço no trabalho de psicanalistas para recuperar estes pacientes.
Ali também o autor do texto menciona um filme que eu acho sensacional (pelo menos a proposta dele) chamado "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" (foi se não me engano o primeiro filme em que o ator Jim Carrey fugiu do gênero comédia). No filme, o personagem de Jim fica magoado porque sua esposa, por conta das tristezas do relacionamento, literalmente deletou de sua mente todas as lembranças daquele relacionamento e ele resolve então fazer o mesmo. O enredo se desenrola a partir daí mas o grande mote do filme é a discussão sobre como lidamos com nossas memórias e como seria um mundo em que pudéssemos apagá-las.
Quem nunca sofreu por amor? Quem nunca teve uma lembrança tão ruim que desejou que, ao invés de ter que lidar com ela por anos a fio em terapias diversas, preferia simplesmente apagar todos os vestígios desse evento de sua memória? Eu já passei por isso...
Parando para pensar sobre tudo o que já aconteceu na minha vida de bom e de ruim, concluo que sou hoje o resultado daquilo que vivi (e do que guardo em minha memória, na cabeça ou no coração, onde quer que ela fique) até o momento e principalmente de como aprendi a lidar com tudo isso. Então, se eu pudesse magicamente tomar um remédio ou fazer uma cirurgia como é proposto no filme para apagar o que me desagrada, como será que eu seria?
Por outro lado, ter um remédio que apague as memórias ruins me faz pensar que tendo um instrumento desses em mãos os governos não precisarão mais se preocupar com os efeitos colaterais de uma guerra aos seus soldados: eles poderão fazer tudo o que "for necessário" sem remorsos porque, no fim das contas, é só administrar o remédio na dose certa que tudo se desfaz...
Usado com ética (hum... difícil definir como funcionaria isso, não?) talvez até fosse uma fonte de alívio para determinadas pessoas que sofrem de males incompreensíveis. Acho que o caso mais evidente para mim seriam as vítimas de estupros ou abusos e violências diversas na infância, adolescência ou na fase adulta. Mas, como seria a reação dos que estão à volta? Apagaríamos as memórias deles também.
Por falar em apagar memórias, outro filme que trata mesmo que subjetivamente do assunto (e fazendo comédia) é o "Homens de Preto" (na verdade, a franquia toda mexe com o assunto, cada um a seu jeito). No segundo filme vemos o agente "J" tendo sua memória do período profissional em que está na organização apagada para viver uma vida simples com o amor da sua vida. Ele vira funcionário de um posto dos Correios e tem uma vida pacata mas, será que ele cumpriria o seu propósito desta forma? No último filme, vemos que o agente "K" descobre que teve suas memórias em relação ao seu passado apagadas (infelizmente não dá para falar mais porque o filme vale a pena ser assistido e eu posso contar algo que não devia) e por isso tinha assuntos mal resolvidos dentro de si.
Quem decidiria como seria essa administração? A quem caberia o poder de definir o que é ético ou não? No filme "Laranja Mecânica" algumas técnicas como lavagem cerebral ou lobotomia são usadas para "curar" um determinado criminoso só que no fim das contas acabam criando um ser que não pode ser chamado exatamente de humano.
Olhando tudo isso, me parece uma saída muito fácil simplesmente apagarmos as memórias do nosso passado, esquecendo-nos daquilo que fizemos, não apenas deixando para trás mas simplesmente ignorando ou fazendo com que nunca tivesse existido algo de ruim em nós ou ainda fazendo com que nossos atos sejam simplesmente deletados por outros, trocando o peso da mágoa pelo vazio da ignorância,
De repente, ao escrever esse texto, percebo que estou ouvindo uma música da Aline Barros chamada "Deus Extraordinário" que cai como uma luva quando diz: "refez minha história, apagou o meu passado, Tu és o Deus extraordinário". Por sinal, a música seguinte do mesmo álbum é a "Teus para sempre" que tem um trecho que diz: "Andamos naquele que venceu o pecado // Nosso passado apagado foi // Vivemos pra ver seu nome exaltado // É do amor de Deus que o mundo mais precisa".
Não sou contra psicólogos e psiquiatras. Eu mesma já fiz terapia e acho uma técnica muito válida, especialmente se o paciente quiser mesmo enfrentar feridas do passado para limpá-las e permitir que sejam fechadas de vez. Mas mesmo essas técnicas envolvem um processo de aprendizado que entendo ser essencial para que sejamos cada vez mais parecidos com Cristo, que deve ser o nosso objetivo maior como cristãos sempre.
Então, será mesmo que uma mente sem lembranças brilha??? Acho que só por um tempo porque, como diz a Bíblia em Mateus 12:43-45: "E, quando o espírito imundo tem saído do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso, e não o encontra. Então diz: Voltarei para a minha casa, de onde saí. E, voltando, acha-a desocupada, varrida e adornada. Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, habitam ali; e são os últimos atos desse homem piores do que os primeiros. Assim acontecerá também a esta geração má".
No fim das contas, entendo que é mais saudável e mais produtivo termos a mente ocupada por lembranças que nos machucaram em algum momento mas que estão sendo tratadas do que simplesmente manter a cabeça (ou o coração) vazia dessas ocasiões que nos machucaram para deixá-la aberta à invasões do inimigo de nossas almas.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário