quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Empatia
Acordei de manhã com a minha filha ao telefone pedindo para não ir à escola porque ela simplesmente esqueceu de fazer um trabalho que valia a nota de recuperação de uma matéria em que, sem grandes motivos, ela foi mal no trimestre passado.
Na verdade, ela ligou explicando que não queria ir e que iria só à tarde para a recuperação para que de manhã ela ficasse e fizesse o tal trabalho, de modo que o prejuízo não fosse tão grande assim em relação a esta matéria. Eu, com sono, confesso que tive dificuldade de entender o que acontecia e mais ainda de decidir algo razoável naquela hora da manhã em que o meu cérebro ainda estava processando as informações do sonho que eu estava sonhando.
Conversamos e depois de entender o que aconteceu eu decidi que ela iria à escola normalmente. Ela chorou muito, reclamou, disse que eu não a entendo e ficou genuinamente brava comigo. Eu, de coração partido, mantive a minha posição e ela acabou indo para a escola.
Depois, a minha mãe me ligou e conversamos sobre o caso. Ela explicou que realmente nesses últimos dias as coisas estão bem enroladas lá em casa e contou até alguns episódios ocorridos com a portaria e com a pintura do apartamento que já deveria ter sido entregue mas que ainda estamos finalizando. Expliquei a ela que entendo a situação mas que não é a primeira vez que a minha filha esquece um trabalho por falta de organização e que, se toda vez eu concordar com as saídas alternativas dela, nunca será aprendida a lição da mudança de atitude.
Claro, quando desliguei, fiquei pensando o quanto eu mesma não conto com aquele jeitinho ou aquela solução milagrosa aos quarenta e sete minutos do segundo tempo... e o quanto, especialmente nesse mundo de projetos em que trabalho, eu não usava isso como estilo de vida também. E percebi que eu mesma faço isso até que com certa frequência...
Deitei então novamente na cama e comecei a pensar como fiquei triste por estar à distância e por não poder fazer muita coisa nesse caso. O que eu queria mesmo era poder levã-la à escola e lá conversar com a Coordenação pedindo mais um prazo e explicando a situação para eles, já que parte dessa confusão vem de um contexto que não foi causado por ela. Só que, à distância, fica complicado e, mesmo se eu conseguir telefonar (acho pouco provável porque daqui a pouco começo a trabalhar de novo) não é a mesma coisa. Além do mais, se eu estivesse em casa, eu poderia tentar ajudar a fazer o trabalho e resolver a situação. Mas, se eu fizesse tudo isso, mais uma vez ela ficaria com a sensação de impunidade e de que ela pode não tomar conta das coisas porque sempre haverá alguém que resolva por ela.
Fiquei então pensando em como Deus se sente quando estamos na situação da minha filha. Penso que Ele nos coloca para seguir um rumo e nesse rumo temos algumas tarefas para cumprir. Para algumas delas, o prazo é indefinido e podemos fazê-la até o final da jornada; outras podemos inclusive não fazer, deixando de lado apenas os bônus que ganharíamos se fizéssemos; outras ainda são obrigatórias e tem prazo definido, mas sempre tem negociação; outras mais a gente fica fazendo e refazendo até aprender a fazer direitinho e só se livra dela quando isso acontece. Mas, de repente, e com todo o respeito, eu me senti como eu acredito que Ele se sente.
Para uma mãe é frustrante ver os seus filhos não seguindo a adiante independente do motivo. Pior ainda quando se vê que a criança tem alguma dificuldade específica que você não consegue ajudar, seja porque você não tem capacidade, seja porque a criança não conta sobre ela ou não permite que você se aproxime. Neste ponto, considerando que Deus é absolutamente poderoso para todas as coisas, Ele não sofre de falta de capacidade mas, assim como qualquer pai ou mãe, Ele permite que escolhamos contar com a ajuda Dele ou não. E acredito que, quando nos distanciamos e não permitimos que Ele nos ajude, a sensação de que podia ser melhor é a que prevalece.
Acredito que Deus não se frustra porque Ele conhece todas as coisas mas, como um bom entusiasta e torcedor pelos Seus filhos, Ele permite que escolhamos e fica "esperando" que, daquelas milhares de possibilidades que se abrem à nossa frente nesses casos, escolhamos a melhor alternativa.
Claro que para isso Ele nos deixou instruções de como proceder mas nem sempre consultamo-la e com isso ficamos à mercê de nossa própria percepção parcial e portanto falha. Só que, depois de um tempo, essas nossas decisões nos fazem ter consequências indesejadas ou ainda nos levam para lados que não são tão bons assim e nós, mais uma vez, como seres parciais e falhos, reclamamos da vida, esquecendo que muitas vezes ela é o resultado daquilo que escolhemos que ela fosse.
Hoje entendi então que quando escolho algo que não é o que Deus planejou para mim fico como a minha filha: sigo a vida, esqueço do que deveria ter feito, lembro-me só quando o calo aperta e fico então esperando que um milagre resolva a situação e, quando ele não vem, eu fico triste e às vezes revoltada, me afastando mais de Deus, ao invés de aproximar-me Dele (o que certamente melhoraria toda a situação).
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