Ontem um enorme sentimento de inadequação invadiu o meu coração. Não sei dizer bem como foi que eu permiti que ele entrasse, mas o ponto é que eu sei exatamente como me sentia: como se eu estivesse fazendo um enorme esforço para me encaixar em algo que simplesmente não me cabe. E pior: dói, aperta, mas não parece me caber do mesmo jeito ao final. E eu estava mesmo muito cansada, dolorida e chateada. Durante a primeira parte do dia lidei bem mal mesmo com tudo isso e o meu instinto foi simplesmente nunca mais voltar à situação que tem me incomodado, deixando tudo para trás e começando tudo outra vez.
Engraçado que, pensando agora sobre isso e fazendo uma retrospectiva, recordo-me ter passado algumas vezes por esse mesmo tipo de situação e quando passei vivi um verdadeiro dilema: por saber que fui rodeada de pessoas que tem tão claramente um senso de mutabilidade com as coisas ao seu redor (o que é bom), vejo que fui influenciada pelo exagero delas e não tenho grandes problemas de fazer mudanças, especialmente quando eu tenho a sensação de que sou eu quem as está promovendo; por outro lado, existe o horror do fantasma da impermanência que me ronda e me assombra, lembrando o quando sou inconstante e o quando mudo de ideia e deixo coisas de lado, mesmo que para os outros eu não passe essa sensação. Então, viver um momento de grande pressão me traz esse dilema à tona outra vez.
Ao final do dia, quando cansei de tentar sozinha, conversei com uma pessoa que, glória a Deus, me mandou para onde eu sabia que deveria ir mas que estava até certo ponto evitando: o meu banheiro. Explico: é lá que eu consigo orar, conversar de verdade com Deus, chorar, clamar, lutar e resolver as coisas... durante o banho, como se o banhar do corpo viesse acompanhado de um banhar da alma e do espírito, fazendo uma limpeza completa. Bom, a bem da verdade, é também o único lugar da casa onde consigo trancar a porta e aproveitar o barulho da água e da música para ficar à vontade e ter a certeza de que outras pessoas não ouvirão o que se passa. Eu fico livre para falar com Deus ali.
Na conversa, eu comentei que me sinto ainda muito despreparada para ser instrumento de Deus e que fico tentando me encaixar num padrão estabelecido no qual as pessoas dão respostas específicas e podem avançar. O ponto é que eu nem sempre concordo com esse padrão como sendo uma regra geral. E pior: eu não acho mesmo que todo mundo seja igual ou deva dar as mesmas respostas ou seguir os mesmos caminhos, e ver que paeço fazer parte de uma minoria que entende as coisas assim me cansa muito. E ontem me levou à exaustão.
Aí, a pessoa, com toda a paciência do mundo, me contou algumas coisas sobre si mesma e fez um comentário que me deixou inicialmente aliviada mas agora me deixou realmente pensando... ouvi algo do tipo: "o propósito de Deus para a vida de cada um dentro de um dia é simples. Um sorriso com o coração, um aperto de mão, um abraço ou um gesto simples, por menor que pareça, pode mudar completamente a vida de alguém". Essa pessoa ainda me contou uma experiência sua em que uma mulher lhe pediu um dinheiro e, negando o pedido, propôs-se a orar por ela e, ao final da oração, ela tirou de sua bolsa uma corda e disse que pretendia se matar mas, por conta da oração, ela desistiu. E eu fiquei chocada... bom, confesso que o primeiro pensamento foi "meu Deus, quero ser sensível assim ao Seu Espírito quando crescer" e pensei que nunca tinha me acontecido isso. Mas depois comecei a me lembrar de alguns momentos em que creio que Deus me incomodou e eu respondi (positiva ou negativamente). Lembrei-me de um dia em que, ao entregar uma bandeja de almoço no shopping para a moça da limpeza, algo me incomodou para voltar e abraça-la e eu, pensando se faria sentido aquilo ou não, perdi tempo e não voltei a tempo de encontrá-la... e fiquei pensando no que teria acontecido se eu a tivesse abraçado; e pensei no que aconteceu de fato e se alguém a abraçou...
Ao final da conversa de fato eu conversei com Deus e coloquei o que precisava diante Dele: não quero mais evitar nada que venha Dele e quero resgatar essa fé e essa vida que, mesmo cheia de "sofisticação" e distrações, precisa ser simples como um abraço em alguém que não está legal ou um sorriso ou uma passagem para um pedestre fora do tempo num dia de chuva.
Confesso que, por um lado, a vida ficou mais desafiadora. Agora, preciso estar mais atenta ao Espírito Santo e em maior comunhão com Ele. Para isso preciso falar menos e me distrair menos. Por outro lado, foi um alívio porque, de verdade, eu nunca estarei preparada para nada por mim mesma porque este definitivamente não é o propósito de Deus para mim e para ninguém.
Entendi que o propósito de Deus é relacionamento entre as pessoas; um relacionamento pautado em atitudes simples, em sentimentos puros, em pequenos gestos. O propósito Dele não tem a ver necessariamente com grandes preparações, esforço gigante ou adequação a padrões que pretendem prever a ação de um Deus que é muito maior do que qualquer coisa. Tem a ver apenas (como se isso fosse pouco) com amar. Expressar amor, sentir amor, decidir amar, viver o amor... simplesmente amar.
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