Engraçado como a gente acha que está indo bem, e de repente, percebe que vive uma ilusão... ontem de noite a minha mãe e a minha filha brigaram por um motivo tão besta que nem vale a pena descrever a briga. Mas, faço questão de mencionar esse evento porque ele, de alguma forma, desencadeou algo que eu precisava encarar e não conseguia ver.
Por causa da briga decidi que hoje eu sairia de casa com a minha filha de tarde para evitar que elas brigassem novamente. Na prática, a minha motivação foi bem egoísta: eu não estava nem um pouco a fim de ficar tentando mediar as duas de novo e nem ficar lidando com aquela situação chata que fica depois das discussões. Pior ainda é ter que escolher lado, o que sinceramente me dói profundamente, especialmente quando sinto que não posso escolher o melhor porque não vejo outra opção.
O ponto é que, uma vez tomada essa decisão, conversei com a minha filha sobre essa saída de casa e, em princípio, eu queria ir para uma loja olhar pisos e azulejos, já que temos que nos preocupar com isso porque em menos de dois anos o nosso apartamento é entregue e precisamos avaliar se o serviço que a construtora oferece faz sentido ou não.. enfim, esse não é o foco. O ponto é que tínhamos combinado de sair perto das quatro da tarde, de modo que aproveitaríamos o rodízio de carros na cidade e voltaríamos apenas depois do término do horário, limitando bastante o contato e com isso evitando o conflito ao máximo.
Depois de uns minutos, me senti uma covarde e me vi ensinando para a minha filha que sair de casa para não enfrentar a situação é uma boa escolha. Me senti péssima por isso porque esse não é um jeito de resolver nada, e além de não resolver as coisas com a minha mãe (ela poderia se sentir abandonada em casa), eu estava mostrando pra minha filha que ela pode sair andando sempre que tiver um problema e fingir que ele não existe, o que é terrível para ela e eu sempre critiquei outros por fazer.
Mas quando minha mãe chegou, por alguma razão, começou a se irritar ao telefone com o pessoal do trabalho e eu e minha filha decidimos que seria uma boa sairmos com o cachorro para ela poder cuidar do que estava acontecendo, conversando com ela na volta, quando ela tivesse resolvido a questão. Não ficamos porque eu ofereci ajuda e ela disse que era no trabalho e que não poderíamos ajudar, e começou a se irritar com o cachorro... acho mesmo que foi o melhor por conta do contexto.
O fato é que saímos e começamos a caminhar. Conversa vai, conversa vem, e a minha filha, que detesta calor, começou a ficar incomodada, e começou a sentir falta de ar. Com isso, ela comentou que essa é uma maneira do psicológico dela me convencer de voltarmos pra casa porque, se depender de mim, não voltamos com a frequência que ela gostaria... e aí começamos uma conversa longa e profunda como acho que nunca tivemos.
Não consigo contar todos os detalhes mas sei que ela, de repente, me disse que eu fui uma péssima mãe até aqui e que sou autocentrada, e que, na verdade, procurei mudar por todo esse tempo para me sentir melhor em relação a mim. Isso me deixou meio confusa, confesso, porque fiquei pensando se fazia sentido o que ela dizia e se, caso fizesse, tinha algum problema nisso. Mas não paramos por aí: ela começou a colocar algumas questões e perguntar sobre o período em que estive com o pai dela, e falamos sobre muitas coisas, muitas mesmo, coisas até que eu pensei que nunca falaríamos...
Então, ela colocou claramente a sua insatisfação em relação à minha ausência em casa por tantos anos e deixou claro que não quer ter filhos porque não quer que eles tenham uma mãe como eu, já que ela tem medo de cometer os mesmos erros que eu. Pedi perdão e deixei claro que nos últimos meses tenho mudado porque tenho entendido que o que eu fazia não estava certo, mas que isso não vai mesmo apagar o passado e que o que me resta é mudar o presente e o que virá, construindo uma nova história.
A conversa continuou por mais um tanto e eu vi que ela conseguiu colocar pra fora coisas que por anos devem tê-la sufocado e que ela não conseguia expressar, e claro, que eu não conseguia ver. O mais importante é que ela conseguiu expressar muito do que sempre guardou e não conseguia dizer, seja por medo de não ser ouvida, seja porque não sabia colocar em palavras... E seja por que motivo for, ela conseguiu dizer, e isso me deu a oportunidade de conversar com ela e entender algumas coisas que acontecem e me dá a chance de fazer diferente, sendo uma mãe melhor para ela e claro, ais útil para essa fase da sua vida.
Senti que realmente perdi um tempo precioso lá atrás com a minha covardia e com a minha falta de vontade de encarar os fatos que, de uma forma ou de outra, eram péssimos porque eu permiti que ficassem dessa maneira. Mas percebi também que Deus, em toda a Sua gentileza, está descortinando uma questão que precisa ser tratada para que ela seja curada e para que eu vá adiante (e seja curada também) e que este é o tempo de tomar novas atitudes, construindo de uma vez por todas uma relação de verdade com a minha filha.
O que virá depende de muitas coisas, mas claro, depende de mim principalmente. O primeiro tijolo desse muro foi derrubado e depende de mim ajudar a derrubar os demais. Sim, eu sei que fui eu quem deu a maior parte do material e do incentivo para que ele fosse construído, mas fico feliz de saber que posso participar do processo de desconstrução dessa muralha perniciosa e que posso, de modo prático, transformar esses tijolos em pisos para uma ponte sólida que liga mãe e filha em um laço bonito e duradouro. E esse é o meu tempo da oportunidade. E essa oportunidade está em minhas mãos. E eu não vou desperdiçar essa chance. De jeito nenhum!
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