Sonhar é bom. Aliás, sonhar é essencial. E quem não sonha? Os velhos, aqueles que não conseguem mais sonhar... uns porque não querem; outros porque não conseguem mais. Velhos, não pela idade, mas pela aparência que a poeira dos dias deixou nas prateleiras vazias na mente e no coração.
Sonhos são como livros em uma estante: algumas prateleiras, e várias cores, espessuras, tamanhos e cores nelas. E por mais que se tente organizar de um modo esteticamente correto, ou por ordem alfabética de seus títulos ou autores, ou ainda pela data de publicação ou qualquer outro critério objetivo, no fundo, as prateleiras sempre contém um "quê" de desorganização. É onde, sem querer, as coisas se juntam, e um sonho, coladinho no outro, vai dando um vislumbre do que se espera do futuro.
Portanto, os velhos são aqueles que não tem livros para colorir as prateleiras. São aqueles que compraram uma coleção de livros com capas iguais e que, no fim das contas, já foram lidos várias e várias vezes... mas que não levam a imaginação a mais lugar nenhum além do passado.
Os velhos são os que, sem perceber, vivem como se já tivessem morrido. São os que, no fundo, já morreram, e não notaram ainda. São os que acham que estão sobrevivendo mas, de verdade, acham isso porque não sabem mais o que é vida. Pelo menos não uma vida digna de ser chamada de vida.
Delirar não é bom: diversos livros jogados nas estantes de modo que eles passam a estragar uns aos outros, entortando capas e amassando folhas... nenhum leitor apaixonado toleraria isso em suas estantes. Mas, ordem demais parece não fazer parte do mundo de quem sonha de verdade.
No fim das contas, quando eu sonho, vejo que tem livros que servem para uma fase da vida; outros que eu nem sei porque comprei, menos ainda porque tentei ler... mas tem alguns que certamente não posso me desfazer, ou aquilo que de mais precioso me foi dado simplesmente se vai com ele.
Reordenar os livros pode ser tarefa difícil... a disposição de encontrar um modo jeito de acomodá-los pode faltar, e a preguiça que nos domina pode simplesmente querer nos fazer deixar os livros como estão. Mas, quando a vida vem e derruba a nossa estante, jogando todos os livros no chão, é necessário reavaliar um a um, relembrando, claro, como são bons os livros, mas sem nos deixar prender na sensação que eles nos trouxeram, lembrando que nem sempre o que nos trouxe até aqui nos levará adiante... E sim, cada livro pode (e às vezes deve) encontrar um novo lar: seja ao lado de outro livro diferente, seja em outra prateleira, ou ainda na estante de outro leitor.
Alguém lá atrás disse que navegar é preciso, e viver não é preciso. Se sonhar é viver, eu proponho então trocar o "navegar" pelo "sonhar", e com isso o "viver" da frase original pode ser substituído por tantos outros verbos que a gente costuma usar no lugar dele: trabalhar, correr, ganhar dinheiro, gastar dinheiro, ter, invejar, delirar, (às vezes) dormir, assistir TV e tantas outras coisas que, no dia a dia, achamos que estamos ganhando com elas, mas que no fundo só nos roubam os sonhos.
Não rirei mais quando um senhor de setenta anos me disser que quando ficar velho não quer ser chato. Afinal de contas, acho que pela primeira vez na vida de verdade, acredito que, o que ele quis dizer´é que, se ele deixar de sonhar, automaticamente ele se tornará velho... mas aí, meu caro, se você se deixar chegar a esse ponto, não se preocupe, porque você não será um chato... você estará morto!!!
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