sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

E de repente... um dia nevou!

Não sei se já registrei a história da neve, mas por via das dúvidas, a registro agora. E a conto não só como uma história qualquer, mas como de certo modo o desfecho de uma fase e o início de outra na minha vida. Porque no fim das contas, o mundo natural é apenas uma sombra ou uma fração do que é o mundo espiritual, ou a vida com Deus.
Antes de vir morar na Itália, eu odiava o frio. E o odiava com todas as minhas forças, porque quando eu acordava de manhã e por um acaso a temperatura era menor do que dezoito graus, eu simplesmente sentia meu dia mais feio, mais duro, e por vezes (não poucas) aquilo acabava com o meu humor mesmo antes do dia começar. Em alguns momentos eu chorava porque simplesmente detestava a ideia de ter que colocar um milhão de roupas pra fazer qualquer coisa que fosse preciso.
Só que, com o passar do tempo, e com a consciência de que eu moraria na Europa (que me sobreveio quando eu visitei a Belgica em 2013) eu entendi que o frio era um gigante que, se não se tornasse meu amigo, ao menos precisava deixar de ser um inimigo e tinha que passar a ter o meu tamanho. E com isso, sabia que em algum momento eu teria que enfrentá-lo. Por sinal, quando foi chegar mais perto do tempo de ir pra Itália (no começo de 2016) eu tomei a decisão de não odiá-lo mais, e comecei até a considerar maneiras saudáveis de lidar com ele: comecei a pesquisar sobre aquecimento de ambientes, roupas próprias para temperaturas próximas ou abaixo de zero e comidas próprias para o clima. E de repente, me veio o estalo: eu verei a neve!!! E aquilo se tornou, de repente, fascinante pra mim. E deixando de lado todo o desconforto que o frio poderia me proporcionar, eu comecei a desejar o dia de ver a neve, e a sonhar com isso.
Chegando na Itália, ainda no outono, procurava me preparar porque eu tinha a expectativa de ainda naquele ano ver a neve. E todos os dias em que eu falava com alguém no Brasil, eu dizia: "amanhã eu vou ver a neve, eu tenho certeza!" e a cada dia que passava, a neve não vinha, e eu, apesar de ficar meio chateada, não desistia da ideia e estava convicta de que naquele ano ainda eu a veria.
Até que um dia, uma amiga que não falava tão bem o italiano, me fez um convite absolutamente estranho: ela me pediu pra ir com ela em uma entrevista de emprego para serviço de babá. A ideia era que ela achava que eu seria melhor que ela porque, além de mais velha e mãe, eu falava melhor o italiano e falava inglês, que era a lingua original do casal. E eu, sem ter o que fazer naquele dia, pensando em ajudá-la, decidi ir. Claro que quando recebi o convite eu ri do inusitado, afinal de contas, eu jamais consideraria ser babá, primeiro porque eu não tinha jeito algum com crianças, e depois que eu nem saberia o que fazer com um bebê, já que fazia mais de quinze anos que não lidava com um. De qualquer modo, fui, e quando chegamos lá, conversa vai, conversa vem, perguntei o nome da linda menininha de nove meses que me colocaram no colo: Neve. Isso mesmo: Neve. Não era Snow ou qualquer outra variação... o nome da menina era Neve. E na hora em que eu a vi, ouvi aquela voz do Espírito Santo dizendo: "Você não queria ver a neve? Então, você viu a Neve. Espere, confie, e deixe de tentar controlar o que é maior do que você. No tempo certo, eu a enviarei". Eu guardei pra mim e entendi o recado: não importava o que eu fizesse, não poderia mudar os tempos, mas poderia me preparar para quando a neve chegasse. E foi então o que começou a queimar dentro de mim.
Branquinha como um floco, ela foi ficando cansada com a conversa entre nós e a mãe dela, e eu a peguei no colo, e de repente, ela dormiu, e a mãe ficou chocada, porque jamais tinha visto alguém tranquilizar a menina com tanta facilidade. E claro, disfarçando, mal sabe ela que em choque fiquei eu, porque jamais considerei a possibilidade de algo assim ser natural para mim. Mas eu vi, e era real: Deus tinha me mudado e eu poderia sim ter aquilo que outros também tinham em suas vidas.
Daquele dia em diante eu nunca mais falei sobre ver a neve, embora eu quisesse muito. Eu sabia que em algum momento ela viria, e isso passou a me bastar. Pelo menos naturalmente.
Em paralelo, seguiu minha vida emocional, e tantas coisas que eu sabia que Deus tinha prometido foram queimando dentro de mim, e alguns sinais de que o tempo chegaria em breve começaram a acontecer. E conforme os dias foram passando, eu fui decidindo me deixar ocupar pelo "hoje", sem deixar de sonhar com o "amanhã", até que um dia o "amanhã" chegasse.
E dentro desse período, foram se apresentando escolhas, e decisões, e posturas a serem tomadas, e a vida seguiu. O frio passou, e voltou, e dentro de mim, vinha a certeza de que a neve estava para cair, e aquilo que era comum para tantos, passaria a ser realidade também para mim. Mas ainda era só mesmo uma certeza, mas não era ainda um fato. Ainda...
Um dia, por conta de circunstâncias, eu fiz uma das orações mais honestas da minha vida, e coloquei pra Deus que eu me recusava dali em diante viver com base no que eu mereço, mas que eu trocava as bases do que viveria dali pra frente, escolhendo viver com a certeza de que o meu Pai não considera o que mereço, mas o que Ele sabe que vai me fazer mais feliz. E quando fiz essa oração, minha alma foi completamente curada, e todo o calor das feridas do passado cessou.
E naquele fim de semana, olhando para o céu de tarde, eu via que tinha algo cinza, um pouco diferente, mas sem crer ou descrer, aguardei. E de repente, como que em uma tempestade, nevou. E quando nevou, não foram só floquinhos: foi uma neve de verdade, cobrindo os vidros dos carros, neve que permitiu fazer guerra de bolinha e dança emocionada. E eu chorava, e ria, e cantava... e filmei, e mandei pra minha família no Brasil, e eles, claro, não entendendo bem porque eu estava tão feliz, acharam legal essa primeira experiência. Mas para mim, era mais do que simplesmente um fenômeno climático: era o sinal de que assim que estamos prontos, a neve cai, e vem em abundância, e refrigera a nossa alma.
E daqueles dias em diante, minha vida não foi mais a mesma. Não nevou mais até agora (naturalmente falando), mas a neve dentro de mim não para de cair, e é como se eu visse, dentro de mim, aqueles globinhos de enfeite todos decorados com aqueles floquinhos que enfeitam e embelezam a paisagem: a neve chegou, e ela veio para ficar!

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