quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A beleza das nossas prisões

Gálatas 5:1 diz que foi para a liberdade que Jesus Cristo nos libertou. Pode soar estranho mas o que de imediato parece apenas um pleonasmo se justifica pela importância em enfatizar uma coisa que parece muito óbvia mas não é: uma vez que somos libertos, o novo estilo de vida óbvio seria a liberdade... Mas infelizmente isso não é vivido assim de modo tão automático.
É tão verdade que embora no papel pareça ridículo considerar outra opção, o autor vai além de continua dizendo "portanto, mantenham-se livres", deixando claro que podemos sim escolher quais serão os nossos próximos passos e que devemos tomar cuidado com as consequências do que escolhemos para não voltar à situação anterior de escravidão. E embora isso pareça ser um contrassenso, fico pensando porque o autor desse livro fez tanta questão de recomendar que prestemos atenção nas nossas escolhas, a fim de não desperdiçar a liberdade conquistada e doada por Cristo através do sacrifício na cruz do calvário.
Depois de muito pensar no assunto, ontem, andando pela rua, me deparei com essa grade que separa a passarela do trilho do trem, e ali fiquei por uns bons minutos, apreciando a paisagem, como o sol batia naquela grade fazendo um lindo contorno na cena, como as plantas que desciam por aqueles retorcidos de metal adornavam de modo tão sutil mas maravilhoso aquele pedaço de metal frio e até feioso, por mais bem feito que fosse. Olhei os raios de sol iluminando os trilhos do trem, a grama que completava a paisagem dando um toque colorido ao cenário... Enfim, uma coisa super simples mas encantadora ao meu ver. E ali, de repente, me caiu a ficha: ficar olhando para a grade me fez perder tanto tempo apreciando-a que me fez perder o foco no que realmente importava, que era chegar ao trem que me levaria à próxima estação.
Parece bobagem mas, pensando no versículo, quantas vezes quando somos aprisionados nos sentimos mal, desconfortáveis, incomodados, e aos poucos, por causa de sentirmos que não temos saída ou por não conseguirmos olhar a situação com serenidade, ou ainda porque aos poucos vamos mesmo nos acostumando a conviver com aquilo que nos é proposto, passamos a achar que certas coisas são normais, que o mundo é só isso ou que de repente ser prisioneiro não é tão ruim assim?
Me dá a sensação de que, quando estamos cansados ou perdemos o foco do que realmente importa, passamos a apreciar as nossas amarras, como se elas fossem o conforto que nos aguarda ao final do dia... Como se pelo menos aquilo nos fosse garantido... Como se isso fosse o suficiente... Como se ter ao redor lindas grades nos fizesse mais livres ou mais bem acomodados... Ou ainda como se isso fosse desculpa para ficar ali um pouco mais, ignorando que aquele lugar te levará à morte.
Mas.. Pior do que isso é quando somos resgatados e na primeira situação delicada nesse novo contexto de liberdade, nos lembramos da prisão que deixamos, pensando em como as grades eram bem iluminadas pelo sol pela manhã, nos dando ao menos uma visão bonita do que não era a nossa vida.. Ou seja, quando menos esperamos, nos colocamos de novo em prisões, em cárceres de todos os tipos, e com isso nos deixamos ser assassinados lentamente, desprezando a Graça que Jesus nos concede.
Me lembro ainda do episódio do povo de Israel saindo do Egito, sob o comando de Moisés, que, diante da primeira dificuldade, reclamou que tinha saudades de comer cebola... Sinceramente eu odeio cebolas, mas cá pra nós, nem que fosse uma deliciosa pizza ou ainda um maravilhoso sorvete ou qualquer outro doce incrível, isso pra mim é só mais uma prova do quanto o ser humano é corruptível pelo brilho do sol nas barras da grade da prisão...
Para concluir a história, em um dado momento, depois de fotografar a linda cena que eu tinha visto, me lembrei do que realmente importava: concluir a travessia que eu estava fazendo de modo a chegar no trem na hora certa para não perder a hora e chegar atrasada na próxima estação.

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