quarta-feira, 7 de novembro de 2018

A sublimidade de ter o básico

Eu nasci numa época em que infelizmente as pessoas já começavam a ter fome por entretenimento, e já valorizavam bem mais os momentos de lazer do que de construção ou trabalho, e que o descanso é praticamente demonizado, simplesmente porque a pessoa se sente em culpa por não estar produzindo mais e mais... e a rotina é tida como um tremendo mal, muitas vezes necessário, mas absolutamente entediante e muitas vezes combatida como o nosso maior inimigo, como se a presença da estrutura básica que nos permite ter rotina nos roubasse a essência da vida e da nossa identidade.
Bom, esse é o contexto de nascimento da minha geração. Adicione-se a isso o crescimento assombroso da televisão e da publicidade, e mais ainda, o fato de ter no meu país de origem uma das publicidades mais eficazes do mundo. Ah, e sem falar que com o advento da Internet, tudo pode se abrir e mudar quase que instantaneamente diante dos nossos olhos (ou pelo menos parece) e através das redes sociais podemos viver uma vida que parece muito boa mas que só é legal mesmo quando tem centenas de curtidas e reações animadas ao que é postado.
Então... nesse contexto, o básico não tem graça, a rotina não provoca suspiros e o essencial não gera admiração em praticamente ninguém. E com isso, sinto que somos desincentivados em relação ao que é simples, primordial e básico, como rotina, estrutura e normalidade. Inclusive parece que ser normal é doença a ser rapidamente combatida...
E eu vivi assim por tanto tempo... considerando que o que é básico sempre esteve e sempre estará aqui, e que o que é fundamento de uma vida organizada na verdade é descartável. Explico: até pouquíssimo tempo atrás eu não fazia a menor questão de ter uma casa. Aliás, eu achava mesmo que esse lance de sonhar em comprar um bom sofá era coisa de burguês desocupado ou sem concentração no que realmente importa (tremenda estupidez minha já que eu mesma sempre tive essa vida burguesa e não me dava conta disso)... e assim foi até que um dia deixei tudo para trás para, por causa do Evangelho, mudar de continente e começar uma vida completamente nova, com a única certeza de que o que realmente importa é que tenho Cristo (isso de fato é verdade, mas ter Cristo não significa ser invencível e nem estar acima de qualquer necessidade humana, como teto por exemplo).
E então eu vivi nesse ritmo por três anos e meio. Isso porque desde quando fui demitida de uma empresa para qual trabalhei por quase onze anos, até hoje, esse foi o tempo que se passou... e nesse período, muitas coisas aconteceram. Entre essas coisas, mudei de casa mais de doze vezes, fiquei pelo menos três vezes sem saber aonde dormiria naquela mesma noite, fiquei mais de dez dias comendo apenas um pacote de macarrão porque era a única coisa que eu podia comprar (até receber o meu próximo salário, que era baixíssimo, mas que era o que eu tinha no momento), vivi de favor, fui resgatada diversas vezes, tive que aprender a dividir um banheiro com mais sete pessoas, adequar minha rotina, meus horários e preferências a outros e muitos outros aprendizados... e sabe de uma coisa? Foi incrível, foi excelente, mas não foi completo.
Anteontem, uma segunda de manhã com chuva, no meio do outono, eu levantei um pouquinho mais tarde porque eu tinha uma consulta médica (a qual tenho direito há alguns meses, porque há um ano apenas sou cidadã do país em que vivo) e depois iria ao meu trabalho de escritório para executar uma série de tarefas rotineiras, que por sinal são repetidas diversas vezes no ano... fui ao médico, tive uma longa conversa de rotina com a doutora, que me pediu os exames mais normais do mundo (teste se sangue, de urina e um raio x da coluna cervical) e dali eu fiz meu caminho costumeiro, parte à pé, parte de ônibus, para no escritório retomar a minha rotina até o horário do almoço, no qual eu demoraria como de costume uma marmita levada de casa. Só de descrever dá até desespero, não? Então... não!
Naquele dia eu percebi como é delicioso ter uma vida comum, ser uma pessoa dentro da normalidade e ter uma rotina estabilizada. Naquele dia eu tive gratidão pelo apartamento alugado em que vivo, que não é o que eu escolheria, mas é o que tem nos acolhido e nos permitido superar o calor e agora o frio; naquele dia eu tive gratidão pelo meu trabalho, que não é o que eu gostaria mas é o instrumento que Deus escolheu pra me sustentar, e através do qual me ensina a ser uma pessoa melhor (ou por bons exemplos, ou por meio de bons desafios); consegui estar contente de ter uma consulta em uma médica do sistema público de saúde (que claro, é muito diferente do Brasil, porque se ao mesmo tempo os médicos te dão muito mais atenção, por outro lado eles tem a atuação bem mais limitada), e porque eu senti que agora tenho assistência médica cotidiana. Eu senti o alívio de não ter que ficar pensando aonde vou morar no mês que vem, qual atividade tenho que aprender de novidade, e como será para ir a esse mesmo emprego (se é de trem, de ônibus, à pé, por onde... visto que toda vez em que se muda de casa, muda -se toda uma organização de vida). Enfim, pude ver a plenitude na normalidade, e sentir que isso não define quem eu sou, e não limita o que posso ser... mas certamente conta uma história e me sustenta para que, daqui em diante, eu possa gastar energia com o que realmente interessa: amar.
Um bom sofá é importante? Se for só porque a sala fica mais bonita com ele do que com uma poltrona antiga, não. Mas se for porque com ele será possível receber com mais conforto as pessoas queridas, passando um tempo mais agradável com visitas de uma tarde ou de uma semana, ou se for pra ajudar alguém em apuros... bom, sonhar com o sofá se torna um empreendimento único, que eu creio que passa a te mover adiante na direção certa. E por falar em mover-se na direção certa, vale a comparação: navega-se muito mais rápido e com mais facilidade em águas tranquilas...

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