sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Ser (parte) ou não ser...

Nos últimos dias eu tenho vivido aquela situação de limbo que parece que de vez em quando a gente vive: fazer parte não fazendo...
Hoje eu vivo em uma condição onde estou inserida dentro de uma rotina familiar, e dentro dessa família existem duas crianças. A boa notícia é que criança é uma delícia para aprender e trocar carinho, afinal de contas, elas se expressam mesmo e abrem portas que a gente quando adulto não abriria jamais. A notícia não tão boa é que elas se expressam mesmo, e abrem portas que a gente quando adulto não abriria quase nunca...
Eu explico: se por um lado elas contam comigo, me abraçam, me contam suas histórias e querem que eu faça parte de vários momentos (como no caso da menina mais velha, que cismou que eu devo conhecer a mãe dela e anda super cabreira e não consegue entender o motivo pelo qual a gente ainda não se conheceu), por outro lado, elas reconhecem que eu não faço parte. E verbalizam isso.
Ontem, depois de um dia inteiro de interação e cuidados mútuos, as meninas começaram a perguntar para o pai quando é que elas vão ao cinema. Papo vai, papo vem, e a mais nova comenta que gostaria muito de ir ao cinema com toda a família: o papai, a mamãe, os avós de ambos os lados... menos eu, porque eu não faço parte da família. A mais velha (que eu acho que está chegando em uma outra fase) comenta que está na dúvida porque, na verdade, talvez eu faça parte de algum modo... e o assunto morre.
E eu, ainda processando a conversa altamente realista, aceito tranquilamente que ela de fato tem razão: eu não faço parte. Mas, por dentro, ficou a dor de lembrar que, na verdade, a família a qual eu pertenço está toda longe, e agora eu vivo completamente sozinha em termos de laços familiares (se pensarmos na versão oficial da coisa) em um país estrangeiro no qual eu ainda estou me encaixando.
Por um lado, nunca estive só (e não estou agora); por outro, nunca estive tão só, por conta da falta de perspectiva de prazo em ter um familiar de fato ao meu lado, mesmo que por um pouco de tempo.
Triste? Não sei... atualmente eu tenho o melhor relacionamento de toda a minha vida com a minha família, e talvez parte disso tenha sido fruto de um investimento em oração e atitudes, mas parte pode ser fruto também de um distanciamento geográfico que, de repente, ajudou todo mundo a olhar a coisa toda com novos olhos, provavelmente mais focados no que é essencial.
O que eu sei é que tomar consciência através do audível de algo que o subconsciente já sabia foi duro, e realmente me balançou. Me faz querer mudar a minha vida atual? Não, mas me faz pensar em como eu preciso me mudar para que essa constatação seja somente informação, e não sofrimento dentro e ao redor de mim.

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