terça-feira, 29 de outubro de 2019

Satisfação é realmente uma escolha

Domingo de noite tivemos pela terceira vez em menos de um mês aqui em casa um problema com o encanamento do banheiro. Problema esse bastante desagradável, e pra fazer a coisa breve, a única descrição que farei é que ficamos, novamente, sabendo o que o vizinho (de cima ou de baixo, ainda não temos muita certeza) andou consumindo na casa dele naqueles dias.
Bom, por causa do ocorrido, mais uma vez tivemos que chamar a administradora do prédio, que é quem nessas horas devemos acionar, porque isso se configura um problema de encanamento geral (na verdade, como disse o encanador anterior que veio aqui, é um problema com a coluna do edifício) e eles ficaram de mandar alguém durante o dia, coisa que não aconteceu. Nesse período, fiquei em casa aguardando e cuidando das minhas coisas.
Quando eu vi que o horário limite estipulado já tinha sido ultrapassado, eu contatei novamente a administradora, que mandou um e-mail com cópia para mim pedindo urgência no atendimento, e inacreditavelmente fomos atendidos. Em menos de três horas, me liga um encanador perguntando se eu poderia recebê-lo em cerca de quinze minutos, e eu claro, disse que sim.
Ele chegou já todo sorridente, o que sinceramente para mim já foi um choque. Perguntou como estava a minha semana, e eu disse que esperava que melhorasse consideravelmente depois do serviço dele, e inacreditavelmente, ele sorriu.
Parece exagero, mas se tem uma coisa que a gente descobre é que o conceito de excelência em atendimento é uma coisa que varia de país para país. Se no Brasil simpatia parece ser pré-requisito para uma boa avaliação (às vezes mais do que eficiência ou eficácia), aqui na Europa não funciona assim. E por sinal, o que é considerado simpático para um brasileiro, aos olhos de um europeu muitas vezes é só mesmo perda de tempo, e portanto, desnecessário.
O fato é que esse cara, em comparação com o anterior que veio há dez dias atrás (durante o dia, diga-se de passagem), era assim um showman: sorridente, animado e cheio de vontade de resolver o problema. Não enrolou, não demorou para começar, e não reclamou da situação do toalete (coisa que o outro fez, mesmo estando em estado muito menos calamitoso que o encontrado pelo rapaz de ontem). E lá foi ele para a batalha contra o cocô.
Ele pediu que eu fornecesse um balde e um recipiente plástico para que ele pudesse "limpar a rota" e rimos da situação quando ofereci o único copo que me pareceu mais adequado para o serviço. Nos despedimos do copo, e lá foi ele concluir o que tinha sido começado.
Ele demorou não sei bem quanto tempo mas depois de um período que nem foi tão longo assim, me chamou para dizer que já estava tudo bem. Ao final, me pediu um "autógrafo" e eu pedi a ele pra fazer uma foto do papel que ele levaria embora, e ele pediu, em tom de brincadeira, pra sair na foto com a ordem de serviço... quando ele viu que eu ri mas já estava fazendo a foto, outra piada na linha do "acho que não sou tão bonito assim, né? vai estragar o registro"...
Por fim, eu disse a ele que respeitava muito o trabalho dele, e ele riu e disse que é um trabalho que exige muita coragem, e eu tive que concordar. Agradeci e ele seguiu o seu caminho.
Eu confesso que achei demais tudo aquilo e chorei de rir, não só naquele momento, mas por uns bons minutos depois contando para uma amiga o acontecido.
Em seguida, retomando a vida, fiquei pensando no que aconteceu, e até agora estou meditando sobre isso, e chego à algumas conclusões.
A primeira delas é que quase tudo é uma questão de ponto de vista. Como assim? Se para o encanador anterior aquele serviço era duro (o que eu devo concordar com ele, afinal deve ser difícil ganhar a vida lidando com dejetos), para este, é desculpa para se comunicar de modo leve e fazer o dia de alguém melhor. O fato não mudou: o trabalho realmente é ingrato e exige muita vontade de executá-lo. Mas a postura com a qual encará-la fez toda a diferença (provavelmente não só na minha vida, mas também na vida deles diariamente).
A segunda coisa é que é possível decidir extrair o melhor de cada situação, e a postura do encanador de ontem me provou isso. Sinceramente, por mais que alguém ganhe muito dinheiro desentupindo canos em situação de emergência, será de verdade que isso seria motivo para tanta leveza no trabalho? Conheci pessoas que ganhavam muito dinheiro de verdade fazendo coisas muito menos ingratas e mais limpas (literalmente) que não tinham metade da boa vontade e disposição que aquele cara demonstrou ontem. Aliás, eu mesma por diversas vezes reclamei de coisas bem menos duras e sujas (literalmente) do que o que aquele cara enfrentou ontem.
A terceira coisa é que sim, não importa o que se faça na vida, é sempre possível ser portador de boas novas e de alegria. E sim, isso é ser portador do amor de Jesus. Claro que não é só isso, mas na maioria das vezes, as pessoas (e eu me incluo) como cristão não conseguem nem isso, que dirá falar de coisas mais profundas ou realmente mudar a vida de alguém...
A quarta é que definitivamente ser excelente é uma escolha, e não depende da circunstância. Pra mim a diferença entre as posturas dos dois encanadores me mostrou que é possível escolher como você quer lidar com cada desafio.
A quinta lição é que uma pessoa se torna memorável não necessariamente pelo que ela faz, mas muitas vezes por como ela decide se comportar. Se considerarmos que um sorriso sincero vem da crença genuína de que está tudo bem, então, no limite, as pessoas se tornam memoráveis por se tornarem a sua melhor versão de si mesmas, independente se o que elas fazem é simples ou complexo, se salva vidas ou se desentope privadas. Não é a ação, e sim a postura que faz a diferença.
A sexta e última é que eu vi na prática o lance de se conhecer a árvore pelos frutos. Não é possível que aquele homem não tenha dificuldades na vida, ou não tenha problemas, mas ele expressa aquilo que ele tem dentro, que é uma satisfação genuína com a sua rotina e a sua atividade, e isso é impressionante porque, se tivermos uma vida de verdade com Cristo, não tem nada além de contentamento a ser transbordado de nós para os outros. E ser lembrada disso é fantástico!
Paro por aqui a minha reflexão porque chego à conclusão de que não só preciso compartilhar isso, mas principalmente viver, e isso se faz fora dessa tela... portanto, até o próximo testemunho!

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