segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Não matarás

Hoje, conversando com uma das minhas irmãs, fiquei sabendo notícias de uma amiga em comum. A amiga em questão é uma mulher já dos seus quarenta e cinco anos, casada (no segundo casamento, por sinal), com um filho maior de idade e com uma vida simples mas sem grandes necessidades. A amiga em questão era uma mulher brilhante, de raciocínio rápido e respostas imediatas (incrivelmente de uma perspicácia assustadora), nem tão bonita mas muito ciente daquilo que tinha em mãos e com um talento de tirar leite de pedra em relação a si mesma. A amiga em questão será, em breve, uma mulher sozinha, largada em um hospital porque não terá condições de cuidar de si mesma (tendo chances de parar em um sanatório ou asilo), sem graça, sem cor, sem vida.

A primeira coisa que viria à minha mente se estivesse lendo essa descrição seria: "hum... tem algo bem errado nisso tudo... se ela era tão brilhante, como está se pintando um futuro tão devastador?" e eu confesso que eu também penso nisso de vez em quando. Ela, por ser muito inteligente e muito esperta (uma raridade, eu confesso), sempre se entediou fácil de tudo e, com isso, sempre precisava de novidades. Só que, por um tempo, as conquistas ao seu redor funcionaram como a motivação necessária para seguir em frente. Por outro lado, a falta de uma experiência genuína com o Senhor mesmo depois de décadas dentro da igreja, fazia com que nos momentos difíceis ela procurasse um descanso em coisas que, na verdade, só pioram a situação: bebida, cigarro, remédios, comida e acho que no final um tanto disso tudo junto.

Mas, em seguida, vem outra questão: "como então ela tem uma vida relativamente estável se ela está envolvida em vícios?" e aí a resposta, para mim, é mais fácil de dar: na verdade, ela, por algum motivo (provavelmente quando quase morreu de infecção generalizada ficando na UTI por uma semana), começou a perceber que talvez o rumo que ela estava seguindo não fosse tão bom assim. Mesmo depois de diversos apelos de familiares (que, diga-se de passagem, deixaram-na de lado) e do marido (que continua lá sustentando-a) ela não tinha mudado. Só que, com a experiência mais assustadora no hospital, ela percebeu que o único apoio que ela tem iria deixá-la e ela decidiu buscar ajuda.

Pois é, aí você pode dizer: "mas, se ela buscou ajuda, o que aconteceu que ela não continuou melhorando?" e essa resposta eu acho que tenho: ela procurou melhorar mas, claro, como ela por muitos anos "deu trabalho" àqueles que estavam ao seu redor, as pessoas mais próximas, já calejadas por anos e anos de promessas não cumpridas, estavam aguardando algo mais além de um discurso bonito (ou mesmo coerente) da parte dela, o que, por um tempo aconteceu mas foi pouco tempo para que as pessoas se motivassem a continuar incentivando-a.

"E o marido dela... o que faz por lá então? Até quando ele vai aguentar?"... e aí eu começo a concluir que a pior coisa disso tudo é chegar à conclusão de que ele está simplesmente "aguentando" e não mais torcendo ou lutando por ela, afinal, ela mesma já desistiu de lutar e, quando resolveu lutar novamente, estava tão fraca que não tinha mais condições de fazê-la por si só.

O mais triste disso tudo é que, com essa decisão que ela tomou no passado de simplesmente se entregar, ela decidiu então propor um suicídio coletivo: ela decidiu morrer aos poucos, entregando-se ao vício ao invés de entregar-se àquele que verdadeiramente poderia reverter o quadro e com isso decidiu também decretar a morte de todos os sonhos que foram sonhados com ela (dela mesma ou daqueles que a rodeiam). Portanto, ela decidiu não só matar-se lentamente mas também matar aqueles que a amam, corroendo seus sonhos e ânimo de seguir com ela.

Hoje, acho que ela tem consciência disso e tenta reagir mas já não consegue mais... e pior, não encontra alguém que esteja com disposição de lutar por ela essa luta. Não sei o que vai ser cobrado dela, mas sei que, em última análise, ela está cometendo um dos piores pecados: matar.

A minha oração então é que o Senhor me mostre se e como eu posso fazer algo por ela. Não quero o mérito de nada, só queria mesmo que ela voltasse a ser uma fração da mulher espetacular que ela foi (e não o desperdício que ela é agora) e que reconhecesse que foi por obra e graça do Senhor que ela foi restaurada.

Peço também que o Senhor me ajude para que eu tenha consciência e discernimento para que eu não provoque, de modo nenhum, a morte (seja física, psicológica, espiritual ou afetiva) de ninguém que me rodeia.

Por fim, peço ao Senhor que, se alguma vez eu fiz isso, que me revele para que eu possa de fato me arrepender, pedir perdão e, mais do que isso, seguir na minha vida um rumo diferente: um caminho de abençoar, de acompanhar, de amar verdadeiramente ao meu próximo.

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