Toda vez que alguém me pergunta se eu prefiro casa ou apartamento, eu respondo sem titubear: amo apartamentos! Nunca tive dúvidas, e as minhas razões sempre foram práticas (ou pelo menos as justificativas que sempre usei foram de ordem prática) para explicar a tal predileção: nada de quintais ou jardins para cuidar, sem preocupações quanto abrir ou fechar as portas/ portões tarde da noite, tranquilidade ao viajar... tudo isso sempre ganhou pra mim da coisa toda de ter a tal 'privacidade' que se tem em uma casa.
Eu pensava que me sentia assim porque, quando eu nasci, meus pais moravam em um apartamento no oitavo andar, com uma vista ampla para uma avenida que, na época, era considerada de grande porte. Por estar acostumada com apartamento na minha primeira infância e ter mudado para uma casa aos seis anos de idade, eu estranhei bastante quando tivemos que lidar com problemas como telhas quebrando, gente estranha passando pela garagem ao entrar com o carro, muros ou grades, a falta de sol que os prédios que foram surgindo ao redor provocavam no nosso quintal... fora que, mais tarde, quando eu voltei a morar em apartamento (já com doze anos) eu curtia demais a liberdade de poder passear pelos andares do prédio sem que a minha mãe se preocupasse tanto comigo, e claro, a companhia dos vizinhos que se tornaram amigos e com os quais vivi grandes aventuras dentro dos muros daquele condomínio (bom, às vezes dos muros dos condomínios vizinhos, já que pulávamos para os prédios ao redor de vez em quando para socializar com os moradores de idades próximas).
Uma época inclusive moramos em uma casa que ficava na parte de cima de uma ladeira (lugar considerado bastante bom). O ponto era que na parte inferior da ladeira tinha uma favela que sempre inundava quando chovia e quando isso acontecia o povo subia sempre com suas coisas nas mãos pra tentar salvar o que era possível. Era difícil lidar com aquela realidade, mas pior mesmo (para os meus olhos insensíveis, egoístas e assustados) era lidar com aquele povo mal intencionado que subia da favela (que era sempre o mesmo grupinho pequeno) e que ficava sentado do outro lado da rua fingindo que ia pegar um ônibus mas ficava ali vigiando os hábitos dos moradores para invadir as casas e assaltar quando as pessoas não estivessem. Uma época até eles começaram a roubar botijões de gás e, ao invés de carregá-los para a favela, eles simplesmente deixavam-nos rolar ladeira abaixo, até que alguém lá embaixo os parasse. Confesso que sempre me perguntei como nada daquilo explodia... pra mim é um mistério até hoje.
Sendo assim, na minha cabeça, eu tinha diversos motivos legítimos para realmente achar que morar em apartamento era uma questão prática super bem resolvida para mim e por isso eu sempre gostei tanto. Mas, por outro lado, quando me perguntavam se eu continuaria gostando de apartamento se eu tivesse funcionários para cuidar do jardim e da garagem e se o lugar em que moro não fosse violento, eu ainda preferia os apartamentos, e nunca soube explicar bem o porquê. Até agora...
Cheguei em casa de um momento muito novo na minha vida (mas ao mesmo tempo que já se repetiu em outros contextos muitas e muitas vezes) e, por estar sem sono suficiente para deitar, decidi ligar a TV. Procurei um filme que, pelo que vi, chama-se em português "Quando o amor acontece". Eu já tinha assistido a esse filme e nem lembro exatamente do que acontece nele, mas quando o encontrei, vi o homem que vive de fazer coaching levando um de seus grupos de treinandos a uma experiência em New York. Na primeira cena que vi, eles estão no meio da cidade, observando o caos urbano face a face. Eles ficaram todos tensos e desconfortáveis, porque afinal de contas, era muita agitação para a maioria deles, e a sensação de impotência em relação ao caos era palpável (pelo menos para mim). Na segunda cena, ele os leva para o topo de um enorme prédio, e mostra a mesma cidade de outra pespectiva, muito mais elevada.
Eu confesso que nem sei o que o personagem falou naquele momento. Só sei que eu vi aquilo e eu me lembrei das diversas vezes em que amei estar dentro de um avião observando tudo lá de baixo por aquela janela estreita, espantada com a pequenez de tantas coisas... realmente, de cima, a agitação de perde, o barulho se vai, o sol bate mais forte e ilumina mais, o vento é mais intenso mas a sensação de liberdade também. E então entendi: a vista dos apartamentos altos me traz isso. E é a mesma sensação de quando eu viajo de avião. E é a mesma sensação que tenho quando peço a Deus que Ele me mostre como Ele vê todas as coisas...
Hoje eu entendi porque gosto de apartamentos altos: eles me fazem com que eu me sinta um pouco mais alinhada com a visão de Deus sobre as coisas. Não em um sentido natural, mas essa visão natural da cidade me faz lembrar das coisas espirituais e da visão que o Papai tem delas. Me faz ao mesmo tempo descansar e repriorizar tudo. É por essas e outras que assumidamente eu amo apartamentos!
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