Engraçado... ontem na célula surgiu uma pergunta que não sei quando foi a última vez que ouvi (não tenho ideia mesmo, pode ter sido há pouquíssimo tempo, ou há anos... não saberia dizer), mas que me colocou pra pensar hoje (ontem fiquei mais concentrada nas respostas dos outros): "qual talento você pensa ter que poderia ser usado em prol de outros?".
No caso a pergunta tinha certamente a ver também com o contexto de vida em igreja, ou seja, o que vc sabe e gosta de fazer que seria útil pra outros no meio da vida cristã?
Alguns tiveram muita dificuldade de pensar em algo, e outros já foram precisos. Curiosamente o líder indicou o teatro, algo que ele ama e que é antigo dentro do seu coração, mas que depois de ter usado no início de sua vida cristã, não teve mais muita chance de usar. Uma amiga falou que seu prazer é falar (não que isso fosse uma surpresa pra alguém ali, mas é muito legal quando a pessoa vive uma vida corrente, no sentido de que ela simplesmente faz o que ama e assume e é feliz assim, a despeito da opinião alheia). A minha mãe falou que a coisa que ela mais pode fazer é ouvir (até porque ela quase não fala o idioma local); outra falou sobre ser motivadora e evangelista na vida, com tudo o que ela acredita. Uma outra falou sobre as crianças, sobre a sua paixão nesse sentido... Curiosamente, aquilo mexeu demais comigo, não por identificação necessariamente, mas porque eu vi nela os olhos brilhando, e uma paixão que eu nunca tinha visto ela expressar por mais nada até então... e isso me deixou pensando no quanto realmente ter uma paixão que te leva além é essencial pro ser humano. E não estou falando de nada necessariamente espiritual: um talento natural que te anima, te deixa feliz e confortável realmente faz toda a diferença.
E eu, por mais que esteja vivendo um momento relacionado à tradução muito forte, e isso realmente queime dentro de mim, respondi "escrever".
Hoje, pensando sobre o assunto, de fato posso ver o quanto eu tenho sim outras paixões e outros gostos, mas como certas coisas na vida já passaram, e quanto essa permanece ainda hoje. Lembro de quando eu descobri que me alegrava ver as pessoas comendo o que fiz com alegria. Lembro também de como foi legal ver a reação do meu pai que ficou chocado quando "descobriu" que eu sei cantar... Lembro da minha alegria e da minha paixão por fotografar, não necessariamente pra ganhar dinheiro, mas pra fazer com que as pessoas tenham uma perspectiva muito particular de como eu vejo a vida... mas também me lembro de como eu sempre gostei de escrever, e de como eu, com quatro anos, achei o máximo começar a ler e escrever. Lembro também que, com cerca de doze anos, ganhei um livro do Júlio Verne da minha mãe, e devorei em poucas horas... aquilo era tão fascinante, tão mágico, tão incrível... mas lembro também do dia em que conheci o pai da minha filha: na verdade, conheci primeiro as suas poesias, que era o que estava dentro do seu coração, e depois a pessoa em si. Lembro de como achava lindo poder se expressar daquela forma (eu tinha quatorze anos na época, mas já tinha gosto pelo diferente e inusitado) e como eu achava que seria muito legal se conseguisse fazer o mesmo... E lembro também como eu fiquei feliz no dia em que viajei simplesmente para escrever: ficar sozinha, na presença de Deus, e acabei iniciando uma jornada que até o momento não terminei, mas que precisa ser concluída e eu já decidi até aonde o farei (volto a Berlin pra isso, com certeza absoluta).
Por fim, lembrei dos livros que meu avô escreveu, e das peças de teatro, e de como aquilo sempre foi mágico para mim, desde o início da descoberta... E penso no quanto eu tenho dessa minha família que, apesar de ser muito presente dentro de mim, está distante há tanto tempo (meu avô faleceu quando eu tinha apenas seis anos de idade).
Percebo que Deus as vezes planta coisas dentro de nós que vão conosco do início ao fim, dos primeiros dias até o leito de morte, e que, se identificadas e bem aproveitadas, fazem da gente alguém que não necessariamente tem muitos talentos, mas que tem algo somente seu, e nos dá a condição de que a nossa existência seja prolongada, com uma marca relevante que permanece no mundo mesmo depois da nossa morte.
quarta-feira, 12 de julho de 2017
O que permanece e o que passa
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