quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Alucin...ação

Hoje eu ouvi que o ser humano, na grande maioria (infelizmente) vive aprisionado em alucinações. E de fato, quando a gente para pra pensar, e considera com calma, muito do nos é apresentado (e que acabamos abraçando como base para as nossas ações) é mesmo mais do que uma ilusão: é realmente uma completa alucinação.
Acho que contando o contexto, vai ficar ainda mais fácil de explicar o porque concordo. Ontem eu falava com o meu namorado em uma chamada de vídeo, e ele de repente me mostra uma moça que ele comentou que é mãe de uma amiguinha da filha dele. Até aí, nada demais, porque crianças tem pais e mães, e normalmente eles interagem, principalmente (e algumas vezes quase que exclusivamente) por causa das crianças. Inclusive, nessa interação, muitas vezes estão inclusas conversas, encontros no parque, festas infantis, atividades comuns dos pequenos e uma trombada eventual em algum canto qualquer. Completamente dentro do normal. Ele então comentou que a moça o chama em vídeo para que a filha dela converse e brinque com a filha dele, porque uma vez que elas não estão mais na mesma escola, e nem moram mais na mesma vizinhança, acaba complicando um pouco a proximidade real, e claro, o virtual ajuda muito. Depois, ele disse que ela propôs então de todos tomarem um lanche juntos, de modo que as meninas pudessem se encontrar e brincar. E aí começou a coisa toda...
A minha primeira reação quando ele começou a contar foi de ouvir até o fim, claro, até porque não tinha nada para se dizer. Conforme ele foi falando, eu fui só engolindo com mais dificuldade, e respirando um pouquinho mais fundo. Mas quando ele mencionou o convite para o lanche... eu não resisti e soltei a seguinte pergunta: "então, mas para a mãe da sua filha ela não liga não, né?", o que provocou nele uma gargalhada vigorosa e em mim uma certa dor de barriga (literalmente inclusive). Eu sabia que a pergunta era até descabida, porque ele jamais em tempo algum me deu nem meio motivo pra pensar que ele se preocuparia com qualquer outra mulher além de mim, mas o fato é que naquele momento, o racional desmaiou e as emoções decidiram tomar o controle do todo. Ele percebeu, e conversamos um pouco sobre isso. Resumidamente, ele disse algo que eu acredito já há alguns anos e que já repeti a muitas amigas, mas que naquele momento me pareceu tão mais simples como discurso do que como ação: quem quer fazer alguma coisa, seja o que for, vai fazer, e geralmente não vai contar nada para o outro, e claro, considerando que moramos em países diferentes, se ele realmente quisesse fazer algo, não seria aquele episódio que traria uma oportunidade. E seria do mesmo modo se eu quisesse tentar algo com outra pessoa por aqui... Aliás, o que eu acredito é que o que vem de fora do relacionamento só tem espaço se quem está dentro abre possibilidade. Caso contrário, o que tenta entrar dá com a cara na porta e volta para onde veio, e tudo bem. Isso quer dizer que amizades existem, que contatos profissionais ou por causa dos filhos existem, mas que eles só tem algum outro significado quando nós permitimos.
Consciente da minha reação ruim (porque no discurso eu ainda sou bem melhor do que na atitude nesse sentido), eu decidi então conversar com o meu pai, uma pessoa mais experiente, e que além de ter tido alguns relacionamentos estáveis, é atualmente casado, e sendo um homem que eu admiro por algumas razões, eu conclui que ele poderia, no mínimo, rir comigo, e me aconselhar para que de fato eu conseguisse alinhar pensamento e sentimento mais rapidamente, porque isso fará a minha vida melhor mais rápido.
Por sinal, um parêntese: eu tenho plena consciência de que essa situação na verdade é mesmo uma grande oportunidade que apareceu para que eu possa ser curada nessa questão que é intimamente relacionada à clareza de quem eu sou e quem eu não sou. Ou seja, tem muito mais a ver com o saber que o meu melhor é suficiente para quem quer que queira ter um relacionamento saudável comigo, e se esse relacionamento não funcionar por qualquer motivo (salvo quando eu errar, o que vai acontecer de tempos em tempos, mas nesse caso peço perdão e procuro a mudança pra melhor), é porque ou a outra pessoa não está conseguindo reconhecer o meu melhor (e nesse caso não sei o quanto consigo ajudar o outro), ou o que ela espera para si é algo diferente do que sou (não melhor, só diferente mesmo) e tudo bem. Até porque isso pode acontecer com qualquer um, faz parte.
Enfim, contei o ocorrido para o meu pai, que me responde muitas coisas, mas uma das que mais me chamou atenção foi mesmo que ele fica impressionado como o ser humano em geral (duro generalizar mas tem muita gente assim mesmo) tem essa tendência de fantasiar o que o outro pensa, e pior, normalmente neste tipo de situação, fantasia uma atitude muito pior do que a pessoa poderia ter... inclusive, na maioria das vezes, a pessoa nem chegou a pensar em nada do tipo e o outro está lá, praticamente alucinando (porque sim, depois do primeiro pensamento vem toda uma história digna de um musical da Brodway ou um filme de Holywood, com mil detalhes complicados e cheia de coisas ruins, traições, reviravoltas, sofrimentos e enganações) e tomando aquela história completamente fictícia que a cabeça dela montou pra basear as próximas reações e atitudes. Ou seja, praticamente, como dizem os italianos, a pessoa "va fuori di testa" (vai para fora da sua cabeça, ou não literalmente, abandona completamente a lógica e o raciocínio).
E isso me fez pensar em quantas vezes eu troco o que já aprendi sobre o amor de Deus pela minha vida, ou sobre o que eu já disse mil vezes para outras pessoas e faz total sentido, por alucinações e fantasias cheias de hipóteses que só fazem sentido em roteiro de novela mexicana, ou ainda de canções do finado Renato Russo, que curtia cantar uma desgraça como ninguém (antes que alguém proteste, eu conhecia absolutamente todas as letras das músicas dele de memória, excluindo "Clarisse" e ouvia quase que diariamente muitas delas, até porque eu tive todos os CDs que existiam até aquele momento à venda da banda e do cantor).
E mais uma vez, orando e pedindo a Deus que me ilumine, e me traga à memória o que me traz esperança, Ele me fez lembrar que quando eu busco ver e viver cada dia mais claramente como Aquele que me amou primeiro, com a visão Da'quele que não erra, e que não se entregou em vão naquela cruz no meu lugar, e que nunca sonhou para mim uma vida de escravidão na mentira e na ilusão, eu sou livre; que quanto mais eu olho para Ele, para o Seu amor, para a Sua Graça, mais fácil fica de identificar o que é eterno e o que é passageiro, o que é real e o que é ilusório, o que é bom e o que é mau. E assim, olhando para Ele, e por meio Dele, e como Ele, eu posso seguir a Sua recomendação: manter-me livre na liberdade que Cristo conquistou para mim na cruz do Calvário.
Posfácio: eu e meu namorado estamos bem! Inclusive rimos muito depois porque agora o assunto é motivo de brincadeira entre nós, e isso é bem legal. Claro que eu ainda não consigo ter toda a serenidade do mundo, porque estou no processo, mas isso é possível porque claro, até através dele Deus tem me amado, me colocando do lado de um homem que decide diariamente me ajudar a ir além, e me ama pelo que eu sou.

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