quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Um violoncelo não é um violino grande

Interessante como a gente tem a tendência de agrupar para simplificar as coisas para o nosso lidar diário. Por exemplo: qual seria a diferença entre um violino e um violoncelo? Se a gente olhar rapidamente, sem parar para analisar tecnicamente (ou seja, se for um leigo olhando os dois instrumentos de modo apressado) vai parecer que o violino é uma versão reduzida do violoncelo, o que aparentemente até é... mas apesar da aparência similar (e se você olhar para os dois instrumentos por mais de dez segundos, vai começar a reparar as diferenças mais evidentes) você aos poucos vai entender que não, o violino não é uma versão reduzida do violoncelo, e que na verdade, eles nem tem a mesma quantidade de cordas, e apesar de ser imprescindível o uso daquele "palitinho" para tocar tanto um quanto outro, nem isso é igual, seja pelo tamanho do "palito", seja pela maneira de segurar o instrumento, e portanto de segurar o tal do adendo musical... ou seja, no fim das contas, um não tem quase nada a ver com o outro, mesmo sendo instrumentos musicais e tendo, aparentemente, uma estrutura física similar de dimensões diferentes.
Antes de seguir adiante, me perdoem os músicos de verdade por não saber o nome daquilo que de um lado é feito de madeira, e do outro é feito de crina de cavalo e que traz a sonoridade tão característica... eu não pesquisei, e nem sei se eu preciso mesmo saber o nome dele, porque no fim, a questão não é abordar aspectos técnicos de cada instrumento, mas fazer um paralelo, como normalmente a vida me apresenta.
Então, continuando, como é comum ao meu ver olharmos duas coisas e, por causa das suas similaridades, tratarmos como se fossem iguais (mas não de um jeito positivo)! Claro que comparar dois carros muito similares e tratá-los como se fossem iguais não é exatamente um pecado mortal (embora possa ofender profundamente o projetista de um dos dois carros, ou dos dois!), mas quando pensamos em colocar na mesma medida duas pessoas, então é aí que a coisa se complica...
Estudos apontam que mais do que a genética, o ser humano é resultado de uma série de fatores, como cultura, educação, percepção emocional e aprendizados em geral. Isso explica inclusive porque dois irmãos gêmeos idênticos, apesar de ter a mesma aparência física, não tem exatamente os mesmos comportamentos e resultados. Ou seja, mesmo o que parece idêntico não é.
O que dizer então quando olhamos para uma criança e para o seu pai ou para a sua mãe, e imediatamente consideramos que, por conta de suas semelhanças com aquele adulto, a criança é igual à ele? E quando a criança é o nosso filho ou a nossa filha, e de repente, por conta das enormes similaridades, consideramos ele ou ela iguais a nós, e aplicamos àquela criança o tratamento que recebemos (ou que gostaríamos de ter recebido) hoje (sem considerar a idade, o contexto em que ela vive, e a realidade atual) porque consideramos que ela é uma miniatura nossa?
Impressionante como Deus fez cada um de nós à imagem e semelhança Dele, mas mesmo assim, somos todos diferentes. Absolutamente inebriante o fato de que cada ser humano tem uma digital que não é repetida por nenhum outro ser. Como podemos ser tão ingênuos (para não dizer cegos) para não notar que Ele nos fez únicos e se relaciona com cada um de nós de modo único... e mesmo assim, continuamos querendo classificar as pessoas para simplificar o nosso "trabalho" ao nos relacionarmos com elas, ignorando completamente o seu universo particular, e com isso, a essência de quem ela é e de quem Deus a projetou para ser. Se gostamos de nos sentirmos únicos para alguém, por que o outro não teria o mesmo desejo? Por que trataríamos igual duas pessoas se elas, por mais parecidas que sejam, são dois seres completamente individuais e únicos?
Isso não tem a ver como fazer diferença em questões práticas, como dar as mesmas oportunidades, ou colocar os mesmos limites (em especial no caso em que é nossa responsabilidade educar aquele outro ser humano), mas fora disso, não deveríamos (e digo isso em primeiro lugar para mudar a mim mesma nesse sentido) conceder ao outro o mesmo tratamento que concedemos a um terceiro simplesmente porque aos nossos olhos eles se parecem iguais.
Cada dia mais eu creio que viver o Evangelho é abrir-se para conhecer o universo particular do outro, e abrir-se para que o outro conheça o seu, de modo que neste teu universo ele encontre não a ti mesmo, mas o Espírito Santo reinando, e com isso haja um primeiro toque Divino na vida dele. Ou se é uma pessoa que também tem o seu relacionamento particular com Deus guiado pelo Espírito Santo, que seja um momento de troca, de compartilhar, sem barreiras, sem medos, sem preconceitos ou ideias pré-estabelecidas. Que apenas o Evangelho seja a nossa base, e que o restante nos permitamos ir aprendendo conforme conhecemos o outro.

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