Tenho aprendido que valorizar uma pessoa é tratá-la como única, como de fato eu gostaria de ser tratada na esmagadora maioria das vezes. E ao mesmo tempo, tenho entendido que valorizar uma relação é dar atenção a ela, e muitas vezes dar exclusividade em alguns momentos. Tenho visto ainda que investir em um relacionamento é, por muitas vezes, guardar segredos do que acontece entre as duas pessoas, quando são coisas boas, para que aquilo seja como um tesouro particular entre os envolvidos.
E conforme eu escrevo estas palavras, na hora me vem à mente a quantidade de coisas que expomos, seja pensamentos, imagens, sentimentos ou só bobagens mesmo, seja pessoalmente, seja através dos nossos perfis em redes sociais. E confesso que conforme me dou conta que estou descobrindo as delícias de ter particulares com algumas pessoas, eu percebo o quanto isso soa contrário ao que se prega e ao que se faz hoje em dia.
Claro que eu me dou conta de que não posso ser uma pessoa completamente reclusa em mim mesma, e que os relacionamentos (a começar com o meu relacionamento principal que é com Deus) são as coisas mais preciosas que tenho e que vivo, mas ao mesmo tempo, e considerando exatamente isso, aos poucos, a minha mentalidade vem mudando, e eu venho percebendo que expor tudo (ou mesmo uma parte significativa do todo) que acontece na minha vida para o mundo sem filtros é, sem pensar muito, uma loucura! E curiosamente, eu não entendia assim, mas a cada dia que passa, percebo como é importante escolher com quem compartilhar certas coisas.
Além do óbvio, como por exemplo, ficar contando que começou a namorar, que mudou de emprego, que está mudando de casa ou coisas do tipo, que o povo posta numa rede social e que a gente se pergunta com qual objetivo isso foi compartilhado (será que a pessoa estava tão feliz mesmo que não mediu pra quem contar, ou será que ela realmente queria aparecer e esperava receber felicitações do maior número de pessoas possível, ou ainda ela só fez isso por ingenuidade, ou por preguiça de contar para um grupo mais restrito de pessoas de modo mais privado, mas ao mesmo tempo mais trabalhoso?) e muitas vezes (pelo menos eu) acaba desistindo de tentar entender. Por outro lado, atire a primeira pedra quem nunca fez algo do tipo (eu já fiz muito, aliás, bem mais do que deveria)!
O fato é que, conforme os dias vão passando, e eu vou entendendo quem realmente se importa, eu percebo quanto tempo eu gastei compartilhando coisas preciosas, como sonhos, projetos ou ideias, ou sentimentos, com pessoas que na verdade não estavam prontas para lidar com a minha informação. De fato, nem sempre estamos prontos para lidar com a realidade do outro, e a recíproca é muito verdadeira também. E aliás, nem sempre estaremos prontos para isso. Certamente é por isso que Deus não se revela por inteiro, como deixa clara a primeira carta aos coríntios no capítulo treze do verso nove ao doze ("Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido"). Portanto, se Deus que é infalível, não compartilha tudo com todo mundo em todo o tempo, por que faríamos nós algo desse tipo?
De um outro lado, ter um relacionamento profundo com alguém ao ponto de poder compartilhar alguma coisa e saber que essa pessoa estará em oração ou simplesmente pensará sobre o que dissemos, ou ainda procurará dizer algo de bom, ou só dará um sorriso, porque embora não tenha nada a dizer, ela se alegra com você... isso é fruto de investimento em intimidade com essa pessoa. E isso é feito com o tempo e aos poucos. Ou deveria...
Ouvi nesta semana uma frase que me fez parar para pensar sobre um assunto que eu jamais me questionei: algumas mulheres, quando noivas, fazem um evento chamado "chá de lingerie", no qual as amigas e parentes são chamadas para presentear a futura esposa com lingeries que vão fazer sucesso nos momentos de intimidade com o futuro marido. Neste evento, rolam brincadeiras e piadinhas, e conselhos, dependendo de quem promove, e ele pode ser ou até bem leve, ou ter coisas bastante pesadas, e as pessoas podem entrar em méritos que passam de muitos limites do que é privado. Basta dizer que as perguntas e conselhos, em alguns casos (como eu já vi uma vez) podem ser sobre olhares, movimentos e preferências mais específicas daquele momento que é (ou era até ali) à dois. Claro que tem algumas coisas bacanas, como a brincadeira em si, como os conselhos (que podem ser mesmo úteis) e sim, o fato de festejar aquela passagem de etapa na vida. Mas devo dizer que eu incluía nesta lista até esta semana também os presentes... porque afinal de contas, quem é que não gosta de ganhar presentes, e economizar com coisas que serão usadas (às vezes muito bem usadas inclusive)?
Pois é... mas criar intimidade com alguém é também saber que em algumas situações, o barato sai caro. Por exemplo: será que vale a pena receber um presente nessa circunstância quando depois essa mesma pessoa, mesmo que involuntariamente, vai ficar te perguntando depois como foi o uso daquilo que ela deu? Ou como serão os olhares daquelas amigas para o seu marido depois que elas já viram o que você ganhou e está usando com ele? Será que realmente faz sentido ou é necessário que as pessoas saibam o que você usa ou deixa de usar quando está com ele? Será que isso não é uma coisa que nos acostumamos a considerar normal mas, na verdade, não é? Será ainda que não estamos delegando para as nossas amigas a responsabilidade de escolhermos algo que será usado em um momento de alegria e prazer com o marido? Duro, não?
Então... mas isso me faz pensar que talvez esse seja um dos reflexos de procurarmos as coisas já prontas, ou já facilitadas o tempo todo. Nos acostumamos a ouvir pastores que pregam a palavra de Deus, mas raramente paramos para ler a Bíblia e pedir ao Espírito Santo que Ele nos diga o que é que está ali adiante de nós para aquele tempo... nos acostumamos até com pastores que pregam mensagens de outros pastores, e não sabem mais como preparar uma pregação... nos acostumamos a citar frases e pensamentos, mas nos incomodamos quando alguém próximo pensa ou procura questionar o que pensamos... e depois esperamos dessa pessoa lealdade à nós... mas que tipo de lealdade que demos a ela?
Enquanto a intimidade tiver preço e não valor, continuaremos a ter uma vida torta em diversos sentidos. Enquanto a intimidade puder ser delegada, continuaremos a seguir a lei do mínimo esforço, ou então continuaremos as priorizar mal as nossas atividades e responsabilidades, porque afinal de contas, já que não gastamos tempo com o que tem valor de fato, precisamos nos ocupar com alguma coisa (e nos ocupamos com as redes sociais, que dão a sensação de nos dar valor, mas que no fim só nos coloca preço sobre a gente mesmo). Enquanto pensarmos que as coisas podem ou devem ser feitas por outros, perdemos o privilégio de construirmos algo, e passamos a ser usuários dependentes da obra de outro. E quanto ao relacionamento com Deus, na Sua infinita Graça, acabamos sendo salvos o tempo todo, mas vivemos só no limite do mínimo, porque afinal de contas, absorvemos e vivemos apenas parte do que o pregador pregou, do que o irmão orou, do que a música cantou... e vamos assim, ao invés de ir na contramão do mundo, seguindo no acostamento dessa estrada, dependentes do tráfego principal, desperdiçando tudo o que Deus tem colocado nas nossas vidas, a começar pela Graça dos únicos dois mandamentos Seus: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Amarás o teu próximo como a ti mesmo." (Mateus 22:37 e 39)
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