quarta-feira, 6 de março de 2019

Os espelhos e os gatilhos

Ah, a Graça... a poderosa e surpreendente Graça!
Eu trabalho neste escritório há mais de dois anos, e essa empresa para a qual trabalho atua num mercado no qual eu jamais atuei, e eu faço coisas para as quais eu jamais estudei, e aliás, a maioria das coisas que faço não necessitariam de alguém que estudou muito para fazê-las. Aqui o meu trabalho é administrativo, como que uma dona de casa, só que de uma empresa de transportes. Eu sou, quando interessa, uma secretária, e quando interessa, uma solucionadora de problemas. Mas na prática, eu não sou oficialmente nem uma coisa e nem outra, e acabo vivendo nesse limbo de tarefas, salários e atribuições... e desperdício de talentos no fim das contas.
Por outro lado, o cara que me contratou é um caso interessante: de início, ele era meu superior, e era ele quem me orientava em tudo, não porque tinha conhecimento, mas porque foi eleito para a função, e assim ele a cumpria. Pouco a pouco, não por minha causa mas por razões externas, ele foi sendo lentamente destituído, e cada dia tinha menos poder de decisão e voto. A um certo ponto, ele ficou no meu nível, e em alguns sentidos, até eu era mais ouvida ou reconhecida do que ele. Duro porque, sabendo dos motivos pelos quais isso aconteceu, vejo o quanto foi difícil para ele passar por todo esse tempo calado, procurando fazer o melhor, independente do que estava acontecendo à sua volta. Num dado momento, ele simplesmente desistiu, e passou a fazer só o que pediam pra ele, quando pediam. Aliás, tivemos diversas discussões porque em uma empresa com três pessoas no escritório, não é que faz sentido para mim ver dois se matando enquanto você, porque o chefe maior não te passou nada para fazer, fica ali se ocupando de coisas diversas, como se o que está acontecendo ao redor não dissesse respeito à você também. Mas, em todas elas, embora eu tivesse razão, a mudança só ocorria entre nós, e o nosso relacionamento profissional ficou limitado a praticamente zero. Pessoalmente continuamos tendo um relacionamento com bastante interação, visto que sendo da mesma igreja, acabamos tendo outros pontos de contato e a nossa (acho que posso de algum modo chamar assim) amizade não tem a ver com o que passamos no dia a dia no trabalho. Talvez tenha com o que superamos, mas isso é outra história.
O fato é que com o passar do tempo, eu tenho visto que as coisas vão andando, e que enquanto eu fico focada em fazer o meu melhor na empresa, ele segue fazendo as coisas dele, e pouco a pouco, foi ficando claro que não se contava com ele para praticamente nada no cotidiano do escritório, e era como se ele não estivesse ou não fizesse parte na grande maioria do tempo. Mas, volta e meia, dependíamos de algo que ele fizesse, e no fim das contas, ele ainda está por aqui.
No começo deste mês fiquei sabendo que ele foi deslocado pelo chefe para uma outra função fora da empresa, e que tudo aquilo que ele cuida ficaria comigo e com o outro colega, e portanto ganharemos mais atividades no nosso dia a dia... ele, por outro lado, foi colocado para fazer o que ele mais ama, e o que ele disse que gostaria de fazer desde antes de chegar aqui, que é a produção de conteúdo digital. E eu ainda não tinha tido a oportunidade de encarar de fato essa mudança estrutural que, diretamente, me afeta até que pouco (deixando de lado o quanto eu ganho de atribuições novas, essa é uma coisa que quase não muda o meu dia a dia), mas que hoje em especial me incomodou profundamente, de um tanto que até doeu. E doeu tanto que em um dado momento eu saí da sala porque simplesmente vi que não conseguia não prestar atenção no que ele e o outro cara que foi chamado pra isso estavam fazendo... e aquilo começou a me fazer mal.
Bom, parando para pensar, eu não fiquei triste exatamente porque estou vendo ele se dedicar de verdade a algo novo, de um modo que eu não vi ele se dedicar nas diversas vezes em que pedi ajuda, até porque ele me deixou muito claro que ele não faria nada além do necessário e me disse o motivo. Acho que fiquei mal por duas razões: porque eu o vejo fazendo algo que ele está curtindo como nunca, e porque eu faço uma coisa que eu absolutamente não aguento mais fazer. Inveja, infelizmente talvez... mas em seguida me veio a seguinte pergunta: "ok, ele está fazendo o que ele gosta... e eu, o que gostaria de fazer de verdade?". A pergunta se fez necessária porque, se eu tivesse sido chamada para fazer o que ele está fazendo, eu estaria feliz? E a resposta é: não. E eu não estaria feliz porque, além de estar indo embora da cidade e da igreja para a qual ele está desenvolvendo esse trabalho (e portanto isso me prenderia em um lugar sem sentido para mim), no fundo, se alguém me perguntasse hoje com o que eu gostaria de trabalhar se eu não precisasse me preocupar com dinheiro, por exemplo, provavelmente eu não teria uma resposta assertiva como ela deveria ser. E isso me deixou mais abalada ainda.
Que eu não estou certa do que quero fazer eu já sabia há algum tempo, mesmo não querendo admitir isso para mim, e mesmo evitando a todo custo falar isso em voz alta. Aliás, tenho na minha cabeça uma frase que ouvi outro dia (em outro contexto, mas cabe aqui) e que foi dita por alguém que quer me ajudar mas já num tom até de certa frustração, que é "você precisa decidir o que você quer", e essa pessoa tem razão. Infelizmente é complicado andar pra frente se nem eu tenho confiança de que pra que lado quero andar. Me sinto capacitada pra muitas coisas, mas não consigo saber de verdade qual delas eu gostaria de fazer, e isso no final do dia tem me mantido no lugar em que estou, e isso não é bom. De fato, eu olho para outros e fico pensando como é bom realizar algo que traz satisfação e alegria, e como eu quero também isso para mim, mas como é ruim me sentir muitas vezes ainda sem rumo, e pior, me vigiando o tempo todo para não invejar outros só porque eles estão vivendo o que eu quero viver também.
Fazendo uma análise breve, vejo que eu já me propus a fazer tantas coisas... infelizmente uma boa parte delas fica no campo das ideias e apenas uma pequena parte eu de fato realizo, o que me gera uma enorme sensação de frustração e perda, porque depois de tanto tempo, fazendo um balanço, eu não construí efetivamente nada (obviamente não vou construir enquanto não eu não mudar essa situação, e basicamente depende de mim virar o jogo). Mas como então fazer diferente? Por outro lado, não fazer nada me mantém na situação atual...
Definitivamente Deus está colocando ao meu redor enormes espelhos, pessoas com quem eu convivo e que, de uma forma ou de outra, tem servido para que eu me movimente, me questione, fique indignada e vá além. A escolha que olhar essas pessoas e me sentir mal é minha; mas eu também tenho a opção de olhar para elas e ver que, se elas conseguiram, confiando em Deus, construir ou conquistar algo, comigo será igual. Inclusive eu posso até concluir que se eu for agraciada com sabedoria da parte de Deus para essa etapa, eu até posso aprender com eles e evitar os erros que eles cometeram para chegar aonde estão.
Bom, como não tenho a menor ideia de por onde começar, decidi perguntar a algumas dessas pessoas (começando por esse colega em específico) se ele precisasse escolher qual é principal característica que ele acha que que faz  ele avançar nas coisas... aguardo as respostas para prosseguir no processo e seguir para o próximo post.

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