Se tem uma coisa que não pode faltar na minha casa é cotonetes. Isso mesmo: palitos de plástico que contém bolinhas de algodão na ponta, com o objetivo de limpar (ou tentar pelo menos) os ouvidos, livrando-os da cera que se acumula, e claro, de eventuais coceiras que surgem.
Parece uma coisa fútil, já que se fosse perguntado à muitas pessoas, provavelmente quase nenhuma diria que cotonete é artigo de primeira necessidade. Nesta lista, ao invés disso, seriam vistos itens como papel higiênico, café, álcool, sabonete, arroz e até pãozinho, dependendo do hábito alimentar da pessoa. Mas pra mim, a utilidade do cotonete ultrapassa a de todos os outros itens (que indiscutivelmente são muito importantes, mesmo pra mim). O cotonete é pra mim, mais do que uma medida de higiene e conforto, um símbolo de segurança, estabilidade e um mínimo de dignidade.
Mas como ele se tornou assim tão importante?
Eu nasci em um contexto onde tive as minhas necessidades básicas atendidas, e na verdade, até as menos básicas também não faltavam. Não me lembro de ter que passar fome mais do que o tempo de chegar em casa, ou no próximo restaurante ou padaria para que o buraco no estômago fosse preenchido. E assim foi até alguns anos atrás.
Claro que já tive momentos de mais fartura, e de mais aperto até ali. Por exemplo, quando minha mãe tomou uma decisão ruim nós negócios e faliu, e recebemos uma ordem de despejo da casa em que morávamos quando eu tinha dezessete anos. Anos depois, quando minha filha nasceu e eu morava na sala da minha sogra, com o salário de um estágio, e com um marido desempregado, ambos universitários bolsistas em um contexto de moedas contadas no bolso... Mais tarde ainda, quando minha filha tinha quatro anos de idade, e eu, ela e o pai dela (novamente sem trabalhar) morávamos na casa do meu pai e estávamos todos desempregados... E em outros momentos em que vimos mais de perto a situação complicar-se, sentimos um pouquinho do que realmente é ter dificuldade de manter a estrutura básica para se viver.
Porém, quando me tornei estrangeira no meu país, me transferindo para a Itália, tudo mudou. Isso porque, chegando lá com a sensação de que o mundo era meu, tinha a convicção de que em alguns meses eu já teria um bom emprego, e seguiria a vida como se nada tivesse mudado em termos financeiros. Só que isso funciona bem nos sonhos. Já na vida real de um imigrante...
Nos primeiros três meses, eu não pude trabalhar por questões burocráticas, que ainda não me permitiam ter todos os documentos necessários para ter um contrato de trabalho, e eu contava com isso. O que eu não contava é que esses três meses se tornassem quase um ano, e meu bolso se esvaziou. Por isso, precisei encarar o trabalho que apareceu, que me ajudou e me atrapalhou bastante.
Dizem que a necessidade é mãe de muitos filhos, e eu concordo. Um deles é desespero, e o outro é ansiedade. Mas definitivamente bom senso e autoconfiança não fazem parte desta lista. E por isso, aceitei condições de trabalho e de salário que eu jamais aceitaria, e não recomendaria a ninguém. E isso me manteve no limite do limite por muitos meses.
Enquanto eu tinha casa, e comida, tudo parecia ainda ter um certo equilibrio e previsibilidade. Mas quando cheguei ao primeiro momento em que fiquei tão sem dinheiro que a única moeda que eu tinha em mãos servia ou pra comprar um pacote de macarrão para uma semana de refeições, ou um pacote de cotonetes, eu me vi em crise profunda. Meus ouvidos coçavam, e eu não sabia mais como poderia higienizá-los, mas não sabia bem como viver uma semana a base de luz.
Claro que pra chegar a contar essa história hoje eu tive que fazer uma escolha difícil, e portanto comprei o macarrão e sobrevivi. Os meus ouvidos coçavam e a cada dia mais me incomodavam mais, até que chegou o próximo salário e eu comprei aquela caixinha mágica que me traria paz aos pensamentos.
Quando tive que escolher entre o cotonete e o macarrão, eu percebi o quanto eu tinha sido abençoada até ali, e o quanto eu tinha chegado fundo em termos financeiros. Na verdade, aquilo era a demonstração do quanto eu tinha me deixado entrar em uma situação de solidão e autonomia, lidando somente com meus próprios recursos, sem poder contar com família, amigos e empréstimos temporários.
Aquela escolha foi uma escola para mim: me ensinou que eu contava com muito mais do que eu precisava para viver; e vi que até ali considerava como garantidas certas coisas que, na verdade, não são. Notei ainda quanto faz falta um parente por perto, ou alguém com quem contar. E sim, vi o quanto eu me deixei ser usada em termos profissionais em troca de uma paga subumana, sem dignidade e desleal em comparação ao que me era exigido.
Demorei para perdoar a quem me explorou, e mais ainda a me perdoar por me deixar explorar, e aprendi a tomar decisões diferentes na vida, entre elas ter sempre uma pequena reserva de dinheiro, nem que seja o suficiente para comprar cotonetes... E sim, os tenho sempre em casa, e levo em viagens sempre em quantidade abundante (nunca se sabe quando vai faltar uma farmácia pra comprar mais deles).
Vai-se a necessidade, fica o símbolo, que me acompanhará pelo resto da vida.
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